A densidade de ''Insensato Coração'' se dilui no glamour de seus personagens. Com uma peculiar sensatez e um estilo inconfundível, Gilberto Braga apresenta uma história focada em conflitos familiares e personagens muito bem delineados, como o sórdido Léo, de Gabriel Braga Nunes. Em sua volta para a Globo, o ator tem conseguido conquistar a antipatia a cada cena com um vilão desprovido de trejeitos, mas humanizado de forma a demonstrar inveja ou ganância em um olhar sempre perseguido pelas lentes inquietas do diretor Dennis Carvalho.
Com um excesso de tomadas em trilho, mas enquadramentos originais e criativos, Dennis reforça um leve e intencional suspense da história que já se define com personagens arquetípicos. Os mocinhos Pedro e Marina, de Eriberto Leão e Paola Oliveira, não exalam grande química neste início, mas prometem se destacar principalmente pelo carisma da protagonista.
Atenta a cada minúcia de sua personagem, Paola parece ter construído a mocinha impetuosa com tintas fortes, mas sem excessos. Mérito da atriz que não tem deixado sua personagem cair no lugar previsível da boazinha insossa. Com ar sutilmente irônico em algumas cenas, Paola e Maria Clara Gueiros prometem ser um dos holofotes da história. Aliás, a comediante que partiu para as novelas desde ''Beleza Pura'' compôs com precisão sua ninfomaníaca dondoca sem tornar vulgar as cenas mais atiradas da personagem.
A vulgaridade, porém, passa rente à Deborah Secco com sua longilínea Natalie, uma atirada ex-participante de ''reality show''. Sem apresentar semelhanças com sua espevitada Darlene, de ''Celebridade'', a atriz consegue mesclar o humor em uma quase vilã em uma crítica suave às caçadoras de fama relâmpago. Sua dobradinha com Leonardo Miggiorin, que vive o afetado gay Roni, já começa a se mostrar um dos ápices de humor da história para contrabalançar os pesados dramas familiares.
Nas ligações em família, poucas cenas já bastam para evidenciar traumas antigos, traições e mágoas pelo texto coerente e por atuações que se destacam. Dentre os núcleos familiares, Nathália do Vale e Antônio Fagundes, como Wanda e Raul, se sobressaem com atuações pertinentes. Com diálogos enxutos, mas com interpretações comoventes, os atores mostram muita sintonia em papéis esculpidos por uma nítida desunião. Em pequenos gestos, Nathália já demonstra toda a sua obsessão e os equívocos na criação dos filhos Léo e Pedro. Já Fagundes parece, finalmente, ter esquecido de vez os trejeitos toscos de seu eterno Pedro de ''Carga Pesada''.
E, por falar em grandes motores, o estúdio-avião que a Globo comprou para a história possibilitou mais verossimilhança às cenas de avião. No entanto, foi absolutamente falsa a tomada do primeiro capítulo, desde o pequeno punhal de Jonas, papel de Tuca Andrada, passando por toda a sequência de ação que quase chegou a comprometer o bom andamento do capítulo que apresenta a trama ao público.
Em meio a toda essa dramaticidade, se sobressaem, além do texto, a caprichada cenografia de Mario Monteiro e o impecável figurino de Helena Gastal. No entanto, a abertura deixou a desejar pela falta de imaginação. Foi simplista demais a imagem de uma escultura que mais parece a logo das Olimpíadas Rio 2016. Só falta mesmo é fôlego de atleta para ouvir a voz rascante de Maria Rita entoando a canção ''Coração em Desalinho'' por mais de oito meses.

mockup