Oficialmente, o delegado número um da repressão morreu por afogamento. Mas Percival de Souza revela: médico levou um murro ao se negar a assinar o atestado de óbito
Como o Fleury acumulou tanto poder?
Ele foi somando pontos em ações de grande repercussão. Ele chega ao Marighella, chega muito perto do Lamarca, então ele está em todas. Quando o Fleury foi preso, com prisão decretada pela justiça estadual de São Paulo, houve uma perplexidade nos aparatos de segurança. Porque até então quem matasse alguém e a justiça decidisse submeter a julgamento pelo júri, tinha que ser automaticamente preso. O Fleury foi pronunciado no primeiro processo e no segundo. Você tem um espaço não superior a 30 dias em que se cria uma lei, conhecida até hoje com o nome dele, Lei Fleury, para mudar esse sistema de prisão automática. Essa é uma lei de 30 dias para ele e por causa dele.
Como foi essa ascensão profissional?
Quando começaram os atentados, sequestros, explosões, execuções, tudo isso foi uma grande novidade para a polícia. A polícia política do Dops não tinha a princípio a menor idéia do que estava acontecendo. O Fleury foi para o Dops para descobrir os autores desses fatos. Ele chegou ao topo da carreira de delegado num tempo meteórico, num espaço que não dá mais de dez anos. Só dois homens na história da polícia conseguiram isso. Ele e o Romeu Tuma, por coincidência juntos. Há uma passagem em que o Fleury diz que se ele vivesse na época de Tiradentes, não hesitaria em prendê-lo. E se tivesse que arrancar alguma informação, o colocaria num pau-de-arara.
O Fleury seguia alguma ideologia?
Ele tinha certeza absoluta de que estava do lado certo. Que era o lado legal, que era o lado do Estado. Na cabeça dele estava muito claro, isso não é uma opção ideológica. Ele chegou à conclusão que, de modo geral, os intelectuais são frágeis psicologicamente. Então para tirar informação de um intelectual no Dops, ele bolou um clima na carceragem: o investigador levava o preso até a sala dele. Batia na porta, o preso já estava tremendo de medo. Quando a porta abria, o preso via um homem sentado com um capacete de aço do excército nazista alemão na cabeça. O investigador entrava e gritava: ‘‘Heil!’’ E o Fleury respondia: ‘‘Heil!’’. Aí o preso imediatamente se dispunha a revelar o que quisessem, não precisavam botar a mão nele.
A morte do Fleury ainda hoje é motivo de controvérsia.
Eu consegui a apuração oficial, inédita. Tem um ponto intrigante que é uma proibição da autópsia no corpo. O Celso Teles, que foi delegado-geral da polícia civil, me disse que havia sinais evidentes de afogamento, e o código do processo penal prevê que, quando os sinais são evidentes, neste caso, pode-se dispensar a autópsia. Ele mandou uma equipe para lá, todo mundo viu, e acharam que não havia dúvidas. Então ele disse que na verdade quis poupar a família do constrangimento do corpo ser cortado, coisa e tal. E ele tinha um inquérito sobre a morte. É o pior inquérito que eu já vi na minha vida profissional.
Há chances de assassinato? Quem se beneficiaria com a morte de Fleury?
Eu não vou defender nenhuma tese. Mas sei que é inevitável que o leitor, ao tomar conhecimento dos detalhes, tenha suspeitas naturais. O inquérito é muito malfeito, displicente, negligente, incompetente, absurdo. A portaria do inquérito é datada de abril de 1979. A determinação formal de investigação é de um mês anterior à morte. Você pode dizer que erraram na hora de datilografar. Mas é isso o que está escrito.
Como foram os últimos momentos de Fleury?
Fleury se embriagou num dia muito feliz: a inauguração de um barco que ele havia comprado. Ele saiu do Guarujá, foi para Ilhabela e atracou o barco. Depois foi jantar com dois casais amigos e continuou bebendo. Fleury tinha que passar por dois barcos até chegar no dele. Quando chegou neste local, o pessoal do primeiro barco insistiu muito para ele tomar a última. Aí veio um marinheiro com uma bandeja com vários cálices, que estariam com champanhe. Só que a bebida estava em cálices de licor. O marinheiro deu o cálice, não foi o Fleury que pegou. O Fleury não tomou um terço do conteúdo deste cálice, o que não era comum, e saiu. Na passagem do segundo para o terceiro barco, ele caiu na água. Jamais poderemos esclarecer a questão, porque não temos autópsia. Têm também uns momentos desconhecidos, com toda a tropa do Fleury e autoridades reunidos na delegacia de Ilhabela, quando chegou o médico que atendeu o local dizendo que não iria assinar o atestado de óbito, porque ele só poderia assinar o que ele viu. Ao dizer isso, um cara deu-lhe um murro, ele caiu e houve um tumulto infernal na delegacia, gente puxando arma, ninguém sabia o que estava acontecendo.
O livro vai trazer também fotos e cópias de documentos?
Consegui as últimas fotos do Fleury em vida, tiradas no barco. Tem fotos com familiares e amigos, em momentos policiais, sociais, no colégio com uniforme, Fleury bebê, Fleury menino. Tem documentos de alguns processos importantes, do SNI, muito preciosos, de um delegado do Doi-Codi que a VPR matou no Rio de Janeiro. Consegui inclusive uma carteira do Serviço Secreto do Exército, com a tarja vermelha do Doi-Codi.
Se não existisse o delegado Fleury, como se configuraria o conflito entre luta armada e ditadura?
Eu não sei se mudaria a história por completo, mas certamente boa parte. Eu acho que a repressão política não teria sido tão exterminadora, porque não conseguiria exterminar. Embora vulnerável, havia uma estrutura teórica de segurança na esquerda. Mas há fatos incríveis. Por exemplo, o Fleury capturou um militante que tinha uma carta de apresentação para o D. Hélder, arcebispo de Olinda e Recife, que protegia alguns presos políticos. Esse preso foi torturado, disse tudo o que Fleury queria saber, e foi morto. O Fleury selecionou um agente do Dops para se apresentar ao D. Hélder com aquela carta, como se fosse o morto. Esse agente ficou mais de um ano lá. Conheceu todo o esquema e houve uma ação repressiva posterior violenta. Eu não sei se um outro policial teria essa audácia, essa cabeça, essa disposição. Eu obtive inclusive alguns manuais do Serviço Nacional de Informações, inéditos, alguns sobre contra-informação e infiltração. É incrível, porque você tem um material teórico e situações reais.
Como a obra vai repercutir?
Vão acontecer várias coisas. Eu vou ter que carregar um fardo, pelo menos por algum tempo, porque há muitas coisas chocantes. Se você traz isso à tona, você paga um preço. Do mesmo modo como é fundo o fosso do passado, segundo o Thomas Mann, também é muito fundo o fosso da repressão. Eu sou pretensioso, com esse livro, no sentido de preencher um vácuo e realmente dar uma contribuição para a história. Acho que a literatura disponível é predominantemente engajada, e consequentemente limitada até no sentido de contar o que os militantes da luta armada passaram. Eu sei que o impacto será inevitável, talvez tenhamos militares e policiais desgostosos, engajados desgostosos, mas tenho certeza que ninguém poderá dizer que não corresponde à realidade.
Fale um pouco mais desta realidade.
Por exemplo, você tem desde um código no Doi-Codi de comunicação, como se o Doi-Codi fosse uma UTI. Era um código hospitalar: ‘‘Prepara a maca, estão chegando... Luz vermelha, atendendo na UTI, vai ter que fazer uma cirurgia urgente, deixa a equipe de plantão’’. Eu identifico um personagem fortíssimo que é o coveiro oficial da repressão. Era o homem encarregado de dar sumiço nos corpos. Esse homem é acima de suspeitas, principalmente da luta armada, era um católico fervoroso... Eu levanto o ritual do sumiço. Tem momentos em que se corta a cabeça de alguém e costura em outro tronco, dedos decepados, coisas chocantes. Com isso dá para entender porque há tantos desaparecidos e não-identificados. Tem um personagem da luta armada que era parceiro do Lamarca, o Eduardo Leite, mais conhecido como Bacuri. O cara foi preso, torturado violentamente por dias, tratado medicamente para se recuperar e torturado de novo. Ele foi morto a pauladas, lentamente. A amante do Fleury é a irmã do Raimundo Pereira. Só isso já é uma coisa muito dura. Talvez tenha gente dizendo que eu não deveria fazer isso. Mesmo porque existiam algumas pessoas que iam à casa dos dois e queriam discutir política com o Fleury. Ela era anarquista, tinha amigos de esquerda e tinha gente que queria discutir política com o Fleury. É inimaginável um negócio deste, mas houve. Tem coisas que vão ser brutais: Fleury fazendo favores para a Elis Regina e Hilda Hirst. É um choque. Trabalhar com isso é o maior desafio profissional da vida. Não é sacanagem, não é nada contra ninguém. Trata-se de revelar um momento.

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