Com um pendor quase irresponsável - mas nunca inconsequente - pela inovação, Jeff Beck entra para a história da música deste século como aqueles gênios criadores que só são inteiramente decifrados pelas gerações futuras. Como um trapezista que dispensa a rede, ele tem uma atração pelo risco. Sua carreira é uma eterna busca pelo inusitado. Sempre que uma fórmula passa a funcionar, Beck procura novos problemas.
Foi assim quando, no final dos anos 60, o guitarrista participou da ‘‘redescoberta’’ britânica do blues e da gestação do heavy metal. Na década seguinte, enquanto os metaleiros ficavam milionários, Beck produziu algumas das poucas idéias interessantes da canoa furada chamada jazz-fusion. Dos anos 80 para cá, além de elaborar experiências no rock instrumental, ele se ocupa em tornar mais instigantes as limitadas variações do pop.
Acompanhar a trajetória de Beck não é tarefa para o ouvinte médio. Embora palatável, sua música atrai muito mais a admiração e o respeito de seus parceiros guitarristas. E essa é a maior barreira para que transcenda a categoria de objeto de estudo.
Muito mais do que tocar com correção técnica, Beck se preocupa em esculpir as notas. Com isso, além das funções harmônicas, elas passam a compor uma textura coesa e indissociável. Sem nunca deixar de ser funcional, o fraseado do guitarrista transforma ruído e som em sinônimos. O resultado disso é uma obra que vem sendo julgada pelos subprodutos. É dele o extrato que, diluído pelos guitarristas de heavy metal, é servido como sopa em estádios. Seus experimentos para transformar o braço da guitarra em um terreno inexplorado acabaram virando uma desculpa para alguns guitarristas contemporâneos que simplesmente não sabem tocar. Beck tem sua dose de culpa. Seu talento para administrar a própria carreira é inverso àquele que ele mostra com a guitarra nas mãos. Genioso e inquieto, ele jamais conseguiu ficar em um grupo tempo suficiente para que, solidificada, sua obra falasse mais alto que as de seus subprodutos. O resto é puro azar. O maior deles foi a concorrência no começo de carreira. Em casa, os súditos da rainha Elizabeth se curvavam diante do bom gosto blueseiro de Eric Clapton e da fusão de música celta com rock de Jimmy Page. Do outro lado do Atlântico, Jimi Hendrix mostrava com quantos decibéis se constrói um mito. Mas todos esses concorrentes têm um débito com a genialidade de Beck. Essa é uma fatura que só será plenamente quitada pelas gerações futuras.

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