Fazer cinema no Brasil é um filme tipo seriado em que, talvez, estejamos assistindo a um dos melhores episódios. A expectativa dos que acompanham de perto a história é de que esta será uma temporada de longa duração, já que a arte no país conhece bem todos os roteiros. Em algumas fases, a falta de incentivos esteve mais para o gênero terror ou ''B'' - tamanho o mau gosto.
O tempo ruim passou. Desde a retomada do cinema brasileiro, em 1995, uma nova geração de cineastas surgiu fora do eixo Rio/São Paulo. É o cinema produzido em cidades como Londrina. Para alguns desses entusiastas, a exemplo de Bruno Gehring, fazer cinema é uma película de proporção hercúlea imaginável somente pelo cine-catástrofe, daqueles em que uma epidemia se espalha pela cidade e os que são inoculados com o vírus não saram nunca mais. Não existe lugar no mundo imune ao contágio que, pouco a pouco, transforma as vítimas em produtores, diretores, cenógrafos, se desdobrando em um sem-fim de funções para realizar um filme.
Gehring e Rodrigo Grota estão à frente da Kinoarte - Instituto de Cinema e Vídeo de Londrina, uma associação cultural sem fins lucrativos que produz, exibe e busca preservar filmes, além de realizar projetos de formação audiovisual. Criada em 2003, a Kinoarte pegou os bons ventos do cinema brasileiro e está se encarregando de espalhar o vírus inoculado nos londrinenses para outras cidades da região, como Cornélio Procópio, onde a associação realizou oficinas, despertando o aparecimento de um núcleo interessado na arte cinematográfica. Um movimento que, ainda em 2008, pretende avançar para as cidades paulistas de Marília e Bauru.
Se na terra dos blockbusters, Hollywood, a fábrica que realiza sonhos de milhões de dólares, as superproduções são reforçadas por incentivos, não poderia ser diferente com os que tentam fazer cinema com baixos orçamentos no interior do Brasil. ''Satori Uso'', a primeira produção da Kinoarte em 35 mm contou um orçamento total de cerca de R$ 100 mil. O Programa Municipal de Incentivo à Cultura (Promic) é o grande apoiador das produções da associação.
''No mundo inteiro é assim. Não existe outro modo de fazer cinema. Mesmo os grandes filmes precisam de leis de incentivo. Essas séries de TV produzidas pela Fox e HBO precisam desses recursos. Dou risada só de ouvir falar de indústria de cinema norte-americana'', comenta Gehring.
Ele afirma que 60% do orçamento de um curta são investidos na parte técnica da produção, como a transferência da captação em digital para 35mm. ''O sistema digital facilitou bastante. O que influencia no resultado final é o filme ter uma boa fotografia e ser produzido com bons equipamentos'', avalia Gehring.
Um termômetro que pode medir a temperatura alta da epidemia cinematográfica que invadiu a cidade é a Mostra Londrina de Cinema, que está na décima edição, prevista para acontecer de 30 de setembro a 3 de outubro.
Realizada pela Kinoarte, a mostra 2007 recebeu 30 inscrições londrinenses - o que dá noção do impacto desse fenômeno cultural ao compararmos a safra de produções até a década de 90, que não ultrapassou 15 iniciativas. ''O pessoal está produzindo bastante, mas falta ainda uma reflexão sobre esta produção. Com a popularização do digital existe muita gente que sabe apertar botão e só. A qualidade do que se produz é uma coisa que precisamos nos preocupar. Efetivamente existe muita gente que não tem um olhar apurado, tentando fazer algo de qualquer jeito'', comenta Gehring.
William de Carvalho também está surfando nessa onda do cinema londrinense. Ele montou e editou a produção em vídeo ''Chacona'', da In Vino Veritas Films, com direção de Rodrigo Poreli. Para Carvalho, a produção londrinense, considerada amadora, não deve nada à profissional, lembrando que, atualmente, a oferta de cursos de Artes Visuais por universidades da cidade está dando um novo perfil aos inoculados pelo cinema.
Gehring acrescenta que há pelo menos três grupos nessas instituições que estão produzindo com uma pegada autoral. ''Acho que a produção londrinense é autoral. Uma coisa que nunca fizemos foi abrir concessão a isso'', aponta ainda Gehring, que hoje se divide entre Londrina e São Paulo, onde também trabalha com cinema. ''Trabalho para produzir um longa-metragem em Londrina. Não quero ir definitivamente para São Paulo. Ao participar de produções na capital paulista percebi que sabemos mais sobre cinema do que imaginávamos. No interior, a dificuldade para realizar um filme é maior. A gente fica pensando onde vai arrumar dinheiro e se ocupando de outras preocupações que não deveriam fazer parte do processo'', afirma Gehring.
Rogério Ceneviva também é mais uma vítima da epidemia. Em sua situação, o vírus do cinema evoluiu para a criação de roteiros. ''Antes de começar a escrever, eu pensava que ninguém produzia roteiros em Londrina. Fiquei impressionado em ver que tinha tanta gente interessada em cinema'', ressalta Ceneviva.
Para essas vítimas da epidemia cinematográfica londrinense só resta emprestar do cineasta Jim Kleist, personagem do curta ''Satori Uso'' a afirmação: ''...cinema deveria ser como a vida. Fluido, orgânico, fragmentado. Mas ele é como a morte: insiste no eterno''.

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