Inocência e castigo
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 16 de maio de 2011
Marcos Losnak <br>Especial para a Folha2 
Imagine a possibilidade da culpa e da inocência sentarem juntas na mesma mesa de jantar. Comerem e beberem como amigas de longa data. Trocarem confidências até perceberem que são mais que amigas. Até perceberem que são irmãs, filhas de um mesmo pai: o crime.
Esse possível encontro e a inesperada revelação está em ''Crimes'', obra do advogado alemão Ferdinand von Schirach lançada pela editora Record. O livro reúne 11 relatos verídicos de casos criminais onde o autor atuou como advogado criminalista.
As histórias presentes em ''Crimes'' eliminam todos os limites possíveis entre realidade e ficção. Ferdinand von Schirach afirma categoricamente que seu livro não tem nada de ficção, todos os casos narrados são reais. Críticos e leitores de vários países pensam o contrário, tratam o livro com obra de ficção.
Podem ser tanto encaradas como histórias reais que parecem irreais, como podem ser vistas como histórias irreais que parecem reais. Trata-se do velho argumento de que, no mundo contemporâneo, a realidade tornou-se tão absurda, tão estranha e tão improvável, que ocupou o lugar da ficção.
Pelo fato de serem histórias carregadas de estranhezas e perplexidades, tende a eliminar os limites entre o real e o irreal. Mais do que histórias de crimes, Schirach narra histórias de vida. Demonstra que não existem crimes gratuitos, mas consequências de uma existência. O ato criminoso seria apenas uma consumação. E o criminoso, mesmo culpado, seria igualmente inocente.
O primeiro relato de ''Crimes'' traz a história de um pacato médico que vivia num pequeno vilarejo. Um pelo dia, após 40 anos de casamento, o sujeito abre a cabeça da esposa com um machado. Na sequência, corta tudo em pedacinhos e liga para a polícia. Curiosamente, apesar da barbaridade, nenhum habitante do lugar o considera culpado.
O motivo envolve toda a existência do sujeito e de sua esposa. E alguns detalhes particulares vinculados a uma promessa do passado. Em sua condenação, o defensor realiza a seguinte leitura: ''Neste caso, não havia o que defender. Trata-se de um problema jurídico-filosófico: qual o sentido da pena? Por que punimos? Há várias teorias. A pena deve dissuadir, a pena deve proteger, a pena deve evitar que o criminoso volte a cometer um crime, a pena deve compensar a injustiça. Nossa legislação reúne essas teorias, mas nenhuma delas se encaixa no presente caso. Fahner não voltaria a matar. A injustiça do crime era evidente, porém difícil de medir. Contei sua história. Queria que as pessoas entendessem que Fahner havia chegado ao fim.''
O mérito de Ferdinand von Schirach está em não apenas apontar o crime e indicar sua solução policial, mas apresenta a história de vida dos criminosos. Suas existências suplantam seus assassinatos, seus roubos, seus desvios insanos. No interior dos personagens, não há mentes doentias, não há tendências psicopatas. Há seres humanos afogados em problemas. Figuras cuja punição da prisão não é praticamente nada diante da autopunição mental.
Em outro relato, o autor apresenta a história de uma garota acusada de assassinar o irmão enfermo. O crime em si é praticamente um detalhe, a consumação de uma existência. Em outro relato traz a trajetória de um jovem que passa a desenvolver o desejo de comer carne humana. Também traz a história de um rapaz que começa a arrancar olhos de ovelhas para guardar seus olhares em sua coleção particular.
Entre fatos concretos quase irreais, conceitos de culpa e inocência, de justiça e injustiça, de verdade e mentira, assumem formas impensáveis. Mas humanamente reais. ''Crimes'' parece muito mais um livro de contos criados por uma fértil imaginação. Mas humanamente reais.
Em seu trabalho a polícia parte do pressuposto de que nada acontece por acaso. Noventa e cinco por cento das investigações resumem-se a tarefas burocráticas, tais como a avaliação das provas materiais, a elaboração de relatórios e o interrogatório de testemunhas. Nos filmes policiais, o criminoso confessa quando se grita com ele, mas a realidade não é tão simples assim. Se um homem empunhando uma faca ensanguentada está debruçado sobre um cadáver, só pode ser o assassino. Em sã consciência, nenhum policial iria acreditar que ele, casualmente, passava pelo local e retirou a faca no intuito de ajudar. A frase daquele detetive que diz que a solução é elementar não passa de uma invenção de roteiristas. A verdade é o contrário.
(Fragmento de Crimes, de Ferdinand Von Schirach)
SERVIÇO
Crimes
Autor - Ferdinand Von Schirach
Editora - Record
Tradução - Roberto Rodrigues
Páginas - 179
Quanto - R$ 29,90


