Inimigos nem tão íntimos
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terça-feira, 05 de agosto de 1997
Carlos Eduardo Lourenço Jorge Especial para a Folha2 
Ken Reagan/DivulgaçãoCena de Inimigo Íntimo, novidade nas locadorasReunidos pela primeira vez, Harrison Ford e Brad Pitt são a quinta-essência comercial de Hollywood, o creme de la creme de suas respectivas gerações, nomes em quem qualquer produtor apostaria sem nenhuma hesitação. Juntos em Inimigo Íntimo, que chega agora às locadoras, eles são a representação emblemática de uma das mais antigas e letais armas estratégicas do segmento thats entertainment , continuamente disparada com sucesso por uma indústria que não se cansa de experimentar fórmulas diversificadas para a perpetuação de suas melhores espécies.
Conflito A história é sobre como dois homens decentes e honrados, que estão separados por suas próprias lealdades e compromissos, chegaram a um conflito irreconciliável, procura sintetizar o diretor Alan J. Pakula.
Irlandeses nos Estados Unidos não são novidade. A colônia é grande e histórica. O que não é comum, pelo menos na superfície, é a presença de ativistas irlandeses na eterna luta contra a dominação inglesa. O jovem Francis McGuire, ou Rory Devaney (Brad Pitt) é um deles. Ele foge de uma prisão na Inglaterra e chega a Nova York. É recebido e se hospeda na casa de um policial de origem irlandesa, Tom OMeara (Harrison Ford). Entre os dois nasce uma sólida amizade, com entendimento e respeito mútuo. Mas enquanto OMeara faz suas rondas pela cidade, Devaney está tentando negociar mísseis no mercado negro, com a atenção voltada para a luta armada em Belfast. Aos poucos, policial e ativista acabam se colocando mais visivelmente em lados opostos. O conflito é inevitável.
Quando o diretor Pakula fala de um conflito irreconciliável está obviamente se referindo ao argumento de Inimigo Íntimo. Mas ele poderia estar sutilmente ironizando os incidentes que foram minimizados e/ou abafados nos bastidores da dispendiosa produção.
Originalmente previsto para lançamento no Natal de 96, The Devils Own começou a tomar forma quando a Columbia contratou Harrison Ford para interpretar um paternal tira irlandês-americano em oposição a Brad Pitt, já então contratado como um charmoso pistoleiro do IRA. O que foi inicialmente pensado para ser o drama de um único grande herói (Ford) logo se revelou sutilmente um pas de deux dançado não por música, mas pelas personas de uma dupla de superstars que a ingenuidade de Pakula chegou a anunciar como egos comportados. O roteiro foi mexido, o que não agradou a Pitt: Tinhamos um grande roteiro, mas foi posto de lado, disse o ator em entrevista a revista Newsweek. E disse mais, que só não caiu fora porque a Columbia o ameaçou com uma multa de 63 milhões de dólares. O estúdio insiste que ninguém jamais ameaçou o ator. Neste momento, Pitt foi ao ouvido de Pakula e disse que de maneira alguma faria um personagem pesado.
Cabo-de-guerra Enquanto neste meio tempo a Columbia tentava esclarecer a história da multa ameaçando Pitt, um dos cinco roteiristas do filme, Robert Mark Kamen, foi pela primeira vez aos sets nova-iorquinos e encontrou Ford e Pitt disputando um verdadeiro cabo-de-guerra em torno de um roteiro ainda inacabado e que não era do agrado de nenhum dos dois. Kamen então negociou página por página, em separado, cada um em seu trailer.
Inimigo Íntimo acabou atrasando 30 dias no cronograma e custando 90 milhões de dólares, bem acima do orçamento. Apesar dos muitos problemas que tivemos ao longo do caminho, no final Harrison e Brad mostraram por que são dois atores simpáticos, complexos e cheios de qualidades heróicas. E acabaram se entregando no nível de profundidade que eu queria, disse Pakula, o diretor de Todos os Homens do Presidente. Embora sem esta profundidade, inclusive com relação ao conflito político, o filme tem lá seus momentos e garante duas horas de ação bem orquestrada. O padrão de acabamento é Hollywood, escala industrial. Meio apagado no seu vídeo, mas ainda assim assistível.


