Ken Reagan/DivulgaçãoCena de ‘‘Inimigo Íntimo’’, novidade nas locadorasReunidos pela primeira vez, Harrison Ford e Brad Pitt são a quinta-essência comercial de Hollywood, o creme de la creme de suas respectivas gerações, nomes em quem qualquer produtor apostaria sem nenhuma hesitação. Juntos em ‘‘Inimigo Íntimo’’, que chega agora às locadoras, eles são a representação emblemática de uma das mais antigas e letais armas estratégicas do segmento ‘‘that’s entertainment ’, continuamente disparada com sucesso por uma indústria que não se cansa de experimentar fórmulas diversificadas para a perpetuação de suas melhores espécies.
Conflito ‘‘A história é sobre como dois homens decentes e honrados, que estão separados por suas próprias lealdades e compromissos, chegaram a um conflito irreconciliável’’, procura sintetizar o diretor Alan J. Pakula.
Irlandeses nos Estados Unidos não são novidade. A colônia é grande e histórica. O que não é comum, pelo menos na superfície, é a presença de ativistas irlandeses na eterna luta contra a dominação inglesa. O jovem Francis McGuire, ou Rory Devaney (Brad Pitt) é um deles. Ele foge de uma prisão na Inglaterra e chega a Nova York. É recebido e se hospeda na casa de um policial de origem irlandesa, Tom O’Meara (Harrison Ford). Entre os dois nasce uma sólida amizade, com entendimento e respeito mútuo. Mas enquanto O’Meara faz suas rondas pela cidade, Devaney está tentando negociar mísseis no mercado negro, com a atenção voltada para a luta armada em Belfast. Aos poucos, policial e ativista acabam se colocando mais visivelmente em lados opostos. O conflito é inevitável.
Quando o diretor Pakula fala de um ‘‘conflito irreconciliável’’ está obviamente se referindo ao argumento de ‘‘Inimigo Íntimo’’. Mas ele poderia estar sutilmente ironizando os incidentes que foram minimizados e/ou abafados nos bastidores da dispendiosa produção.
Originalmente previsto para lançamento no Natal de 96, ‘‘The Devil’s Own’’ começou a tomar forma quando a Columbia contratou Harrison Ford para interpretar um paternal tira irlandês-americano em oposição a Brad Pitt, já então contratado como um charmoso pistoleiro do IRA. O que foi inicialmente pensado para ser o drama de um único grande herói (Ford) logo se revelou sutilmente um pas de deux dançado não por música, mas pelas personas de uma dupla de superstars que a ingenuidade de Pakula chegou a anunciar como ‘‘egos comportados’’. O roteiro foi mexido, o que não agradou a Pitt: ‘‘Tinhamos um grande roteiro, mas foi posto de lado’’, disse o ator em entrevista a revista Newsweek. E disse mais, que só não caiu fora porque a Columbia o ameaçou com uma multa de 63 milhões de dólares. O estúdio insiste que ninguém jamais ameaçou o ator. Neste momento, Pitt foi ao ouvido de Pakula e disse que de maneira alguma faria um personagem pesado.
Cabo-de-guerra Enquanto neste meio tempo a Columbia tentava esclarecer a história da multa ameaçando Pitt, um dos cinco roteiristas do filme, Robert Mark Kamen, foi pela primeira vez aos sets nova-iorquinos e encontrou Ford e Pitt disputando um verdadeiro cabo-de-guerra em torno de um roteiro ainda inacabado e que não era do agrado de nenhum dos dois. Kamen então negociou página por página, em separado, cada um em seu trailer.
‘‘Inimigo Íntimo’’ acabou atrasando 30 dias no cronograma e custando 90 milhões de dólares, bem acima do orçamento. ‘‘Apesar dos muitos problemas que tivemos ao longo do caminho, no final Harrison e Brad mostraram por que são dois atores simpáticos, complexos e cheios de qualidades heróicas. E acabaram se entregando no nível de profundidade que eu queria’’, disse Pakula, o diretor de ‘‘Todos os Homens do Presidente’’. Embora sem esta profundidade, inclusive com relação ao conflito político, o filme tem lá seus momentos e garante duas horas de ação bem orquestrada. O padrão de acabamento é Hollywood, escala industrial. Meio apagado no seu vídeo, mas ainda assim assistível.

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