Isadora Andrade
TV Press
Letícia Spiller não consegue se livrar dos trejeitos de Maria Regina, mesmo quando não está em cena. A maquiavélica personagem de ‘‘Suave Veneno’’ aparece numa conversa normal, quando o jeito extrovertido e sorridente habitual da atriz dá lugar à postura séria e empinada e ao modo pausado de falar da vilã. A própria atriz confessa que, quando se olha no espelho, tem visto a Maria Regina antes da Letícia. ‘‘Às vezes, coloco uma presilhinha no cabelo para fazer de conta que sou eu, a Letícia’’, deixa escapar.
Foi a personalidade forte e a composição exagerada da vilã da novela das oito que fizeram com que Letícia fosse alvo de uma verdadeira saraivada de críticas. Isso porque no início da novela, acredita a atriz, ela apostou numa vilã extremamente caricaturada. Agora acha que a personagem vem se despindo dos excessos de caracterização. ‘‘No início, achava que ela era o absurdo dos absurdos. Mas, de fato, um personagem se constrói aos poucos’’, justifica.
Como você tem reagido às críticas a respeito da composição exagerada de Maria Regina?
Acredito que, até o final de uma novela, a gente está sempre buscando a perfeição de um personagem. No começo de um trabalho, principalmente de uma novela, na qual as coisas acontecem muito rápido, o tempo é curto para se compor um personagem. E ‘‘Suave Veneno’’ aconteceu de última hora. Então, acredito que a Maria Regina foi nascendo aos poucos. Era melhor fazer mais no começo do que ficar economizando. Depois era só tirar.
Então você concorda que os trejeitos da personagem eram realmente exagerados?
R - O trabalho de caracterização de uma vilã é muito delicado, deixa você a um passo do ridículo, do cômico. Tomei cuidado para que a Maria Regina não ficasse exagerada. No início, ninguém sabia se a novela falava de realidade ou de ficção. Ainda hoje, ‘‘Suave Veneno’’ trabalha com o realismo fantástico, o que é típico do Aguinaldo. E quando li o roteiro, tive uma idéia completamente diferente da personagem. Assim, comecei a pirar mesmo. Decidi me jogar logo de cabeça para ver o que acontecia.
No início da novela, você havia dito que a personagem, apesar de vilã, era dotada de sentimentos nobres. Com o festival de maldades da personagem, você ainda acredita nisso?
Acho que tudo o que move a Maria Regina tem um lado emocional. Por isso acredito que ela tem chance de se redimir como ser humano. Se ela fosse uma psicopata simplesmente, se fosse fria, acho que realmente não teria jeito. Mas como eu tento construí-la se movimentando pelo lado emocional, a revolta contra o pai e outros sentimentos ainda são muito inconscientes para ela. A personagem ainda não se tocou das maldades que faz. Algumas portas estão se abrindo para ela e o amor, por exemplo, pode ser um caminho para a regeneração. Ela precisa sofrer para se transformar.
Você se desliga da Maria Regina facilmente ou fica movida pela personagem?
Eu consigo me desligar da Maria Regina. O que fica é o cansaço de um dia de trabalho mais desgastante. A personagem não tem nada a ver comigo.
E como é a repercussão da personagem nas ruas? Já aconteceu alguma situação embaraçosa?
Certa vez entrei em uma loja, dei boa tarde e sorri. Enfim, fui muito educada. Mas teve um senhor que não me cumprimentou. Na hora de ir embora, dei tchau e ele disse, de forma sisuda: ‘‘Nossa, você é muito ruim, minha filha’’. Não sei se ele estava brincando porque me olhava muito sério. Acabei dando uma boa gargalhada.
Depois de encarnar uma vilã, como a Maria Regina, que tipo de personagem gostaria de interpretar?
Já fiz a heroína e agora faço a vilã. Também fiz uma louca engraçada, que era a Babalu. Quero viver agora alguém que faça parte da minoria ou que tenha algum problema sério de doença. Ou ainda que tenha alguma outra dificuldade, seja na área financeira ou social.
A Babalu, de ‘‘Quatro por Quatro’’, por exemplo, tinha características cômicas e acabou virando sucesso nacional. Em algum momento você temeu ficar estereotipada pela personagem?
Não fiquei com medo porque também posso mostrar várias outras facetas. Como, por exemplo, a Giovanna de ‘‘O Rei do Gado’’, e a Querência, de ‘‘Os Trapalhões’’, além das experiências no teatro. Mas confesso que já sofri muito preconceito por ter sido paquita. Falavam que eu só estava a fim de curtir a vida, de brincar. Na verdade, sempre fiz teatro amador e profissional e poucos sabiam disso. As pessoas não levavam fé em mim. Não acreditavam que eu queria mesmo ser atriz e confiava no meu potencial. Eu sabia que tinha vocação e não gostaria de fazer um papel como a Babalu logo depois da novela. Até fui chamada para interpretar a Lucinha, de ‘‘Pecado Capital’’, mas não aceitei pois estava filmando ‘‘Oriundi’’.
Você tem uma predileção por personagens dramáticos?
Acredito que um ator dramático pode fazer de tudo. Mas também adoro personagens cômicos. Acredito que a comédia envolve drama. Pensando bem, gosto dos dois gêneros. Tento achar humor até mesmo em personagens como a Maria Regina.

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