INICIATIVA - Uma rádio que brota do chão
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sexta-feira, 23 de maio de 2003
Antônio Mariano Júnior<BR>Reportagem Local 
Ao longe, de dentro de um dos ônibus do Comboio Cultural, vê-se primeiramente a bandeira do Movimento dos Sem Terra no alto de um imenso bambu. Está fincada em solo conquistado e oficialmente reconhecido como Assentamento Dorcelina Folador, cravado em Arapongas, a 37 quilômetros de Londrina. Lá, 94 famílias 400 adultos e 200 crianças se ocupam em formatar o cotidiano. Um grupo de homens, mulheres e crianças sandálias de borracha e pés absorvem a cor da terra vermelha aguarda a chegada do ônibus com saudável ansiedade.
A possível poesia vem do chão, mas a realidade sai de mesa e caixas de som, aparelho de gravação de MD e três microfones. Está plantada a semente da rádio comunitária naquela terra, cujas ondas foram emitidas através do Festival Internacional de Londrina, dentro do projeto denominado Ondas Livres no Assentamento. É uma oficina realizada em parceria com o Centro Cultural Teatro Guaíra e Secretaria do Estado da Cultura. Por trás da iniciativa, Nitis Jacon, que instituiu o programa Paranização que pretende descentralizar as ações culturais do Teatro Guaíra, da qual é presidente. Nos dois anos anteriores, ainda dentro do Filo, o Dorcelina Folador teve contato com as áreas de cinema e teatro.
Este ano, as oficinas aconteceram de 12 a 22 de maio. Na coordenação, o experiente jornalista José de Melo que tem no currículo atuação, entre outros veículos, na Rádio Educativa do Paraná. Essa é primeira vez que ajuda na implantação de uma rádio comunitária com importância tão grande quanto o nome oficial da empreitada: Projeto de Incentivo à Criação e Desenvolvimento de Rádios Comunitárias com Programação Cultural.
Melo não consegue disfarçar o orgulho da missão que lhe foi incumbida por Nitis Jacon. Quando fala, fala maravilhado. Fiquei surpreso ao perceber o interesse das pessoas em conhecer músicas que não caíram no processo de massificação. Outro dia, uma criança chegou para mim e disse: puxa, não sabia que tinha músicas tão bonitas. É emocionante, diz ele.
O projeto de implantação da rádio comunitária é o primeiro dentro do programa Paranização. O zelo é muito. O carinho idem. Uma das preocupações foi se afastar completamente das influências das rádios convencionais. Se for para copiar o modelo comercial, o projeto de rádio comunitário perde o sentido, frisa Melo. A primeira preocupação foi com a relação de canções, gêneros, cantores e compositores. Em vez de Zezé di Camargo e Luciano, Pena Branca e Xavantinho. No lugar de Chitãozinho e Xororó, Villa-lobos, cirandas, manifestações musicais da cultura popular, enfim.
No Dorcelina Folador, José de Melo trabalhou com uma relação de 120 músicas (o play list chega a 3 mil). Os participantes da oficina 30 pessoas, com idade entre 10 e 56 anos puderam tomar contato com histórias de autores brasileiros com trajetória profissional também ligada às causas sociais. É o caso de João do Vale e Nara Leão. Prestavam muita atenção. No caso da Nara Leão, expliquei que ela era da Bossa Nova, vinha da burguesia e rompeu com tudo para ter uma preocupação social. Eles se apaixonaram, conta.
A José de Melo coube a tarefa de dar noções básicas, mas consistentes, do funcionamento de uma rádio (teoria, linguagem coloquial, construção de textos técnicas de montagem, entre outros itens). Ao seu lado, trabalhou a jornalista Elza Caldeira que ficou responsável pela oficina de notícias junto a 10 pessoas. Foi convocada pela competência e por participar, no ano passado, de projeto similar no Jardim Santiago, em Londrina.
O repasse das informações foram absorvidos, mas não houve interferência na elaboração dos programas. Das músicas aos nomes do programa e até mesmo o dial (104,9, o número é aleatório) foram determinados pelos participantes da oficina. Não interferimos, foi tudo impulso deles, frisa Melo. Por enquanto, sete programas que vão de músicas sertaneja de raiz, infantis, música brasileira, noticiário até entrevistas com pessoas que tratem de assuntos relativos à comunidade.
O próximo passo é a solicitação de concessão da rádio comunitária (que funciona em Freqüencia Modulada) junto à Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel). O processo, em média, leva cerca de cinco meses para ser avaliado e aprovado. Até lá, José de Melo e Elza Caldeira vão continuar, ao menos mensalmente, dando suporte técnico. Enquanto isso, a comunidade terá que ir atrás de apoios um dos parceiros certo é a direção geral do M.S.T. para a aquisição de equipamentos. O custo mínimo é de R$ 5 mil, embora o ideal para a instalação de um bom estúdio chegue a R$ 10 mil.
Mais uma conquista da comunidade do Assentamento Dorcelina Folador. Mais um trunfo daquela gente de perfil obstinado que diariamente arranca a vida com a mão.
O estúdio da rádio comunitária é uma semente de comunicação plantada no Assentamento Dorcelina Folador: projeto foge das influências das emissoras comerciais
José de Melo fala da programação: Não interferimos, foi tudo impulso deles


