Debater os problemas da cidade e trabalhar para buscar as soluções faz parte dia-a-dia de 20 estudantes da 7 série de escolas públicas e particulares de Ibiporã (14 km a leste de Londrina). O grupo faz parte da 7 turma a integrar o Projeto Câmara Mirim, desenvolvido pela Câmara de Vereadores da cidade desde 1997. Todo ano, dois alunos de cada escola são indicados para participar do projeto durante um ano. Cada escola escolhe a melhor forma de selecionar seus representantes. Pode ser o aluno que apresentar as melhores notas, a redação mais bem escrita ou que tenha um comportamento exemplar (o que normalmente significa também um boletim com boas notas).
No decorrer do projeto, os alunos realizam uma sessão por mês na Câmara de Vereadores. Na pauta, os vereadores mirins aprendem a perceber os problemas de âmbito coletivo. A falta de asfalto em alguns bairros, a retirada de um telefone público da frente da escola, a necessidade da reciclagem de lixo, a manutenção de escolas, horário de abertura da biblioteca e construção de quadras esportivas são alguns dos assuntos discutidos na sessão.
Quando o projeto é aprovado por eles, é encaminhado como sugestão para a Câmara de Vereadores, fazendo parte do trâmite legal. Neste ano, saiu a aprovação da construção de uma quadra poliesportiva, que estava sendo reivindicada há dois anos. Cada projeto efetivado é conquistado com satisfação. ''É bom saber que contribuímos com a cidade'', comentam, de modo geral.
No final do projeto, os vereadores mirins fazem uma viagem a Curitiba para conhecer a Assembléia Legislativa. Eles também acompanham um dia da rotina do Prefeito.
O projeto foi idealizado pelos vereadores Lourdes Aparecida da Silva Narcizo e João Toledo Coloniezi. Segundo Lourdes, a intenção foi estimular a participação popular na política e contribuir para a formação de uma visão mais positiva dos políticos. ''A maioria deles entra pensando que todo político é corrupto. Com o tempo, vão percebendo que a política pode ser exercida com ética e respeito. Também tomam conhecimento dos trâmites dos projetos de lei e percebem o quanto esse processo é lento, independente da vontade do vererador que o escreveu'', disse.
A vereadora também ressaltou que o projeto é uma forma de criar uma consciência política nos jovens. ''Hoje não há muito porque lutar. O povo está apático, submisso. E nas escolas não temos uma formação política adequada. Na maioria da vezes temos uma educação reprodutivista. O nosso projeto pretende ser uma 'escola de política''', ressaltou.
Robson Marques Figueiredo, 13 anos, parece que aprendeu bem a lição. Ele reconheceu que no início também achava que todo político ''roubava'' e descobriu que por causa dessa fama as pessoas costumam rotular até os que são honestos de ladrão. Robson tem vontade de ser político. Acha justo que o político receba um salário pelo seu trabalho, mas tem uma idéia ousada para isso. ''Acho que o vereador deveria receber 50% do salário da sua profissão'', defendeu. Amizade, amadurecimento e mais autoconfiança foram citados por ele como algumas de suas conquistas durante o projeto: ''Antes eu tremia quando eu tinha que defender uma idéia.''
A vereadora mirim Larissa Mozer Dovídio, 14 anos, contou que aprendeu a fazer projetos e gostou de conhecer a realidade das outras escolas. ''Através do projeto passei a ter mais argumentos para falar sobre política e até supervisionar o Poder Executivo. Espero que todos que participarem do projeto participem dessa oportunidade única.''
Amanda Zaparolli Zucoloto, 13 anos, relatou que o projeto ajudou principalmente a desenvolver o seu senso de cidadania e conhecer as diferenças entre os poderes legislativo, executivo e judiciário. ''Isso me preparou para acompanhar o trabalho dos seus representantes.''
A recém-empossada vereadora mirim Isabelle de Moraes Ferreira, 13 anos, que assume em 2005, foi selecionada pelo voto aberto dos seus colegas de sala. Recebeu oito votos, de um total de 22. Ela explicou que os professores vão ajudá-la a elaborar os projetos e que idéias não faltam. ''Há sujeira nas ruas e entupimento de bueiros que precisam ser resolvidos.''
Outra que assume no ano que vem é a Cauane Cristina de Oliveira, 11 anos. A sua prioridade é viabilizar asfalto em algumas ruas da cidade. ''Acho que vou conseguir e é importante que os nosso pais também sejam mobilizados para concretizarmos o projeto'', argumentou.
O diretor do Colégio Estadual Olavo Billac, Gerson Mori, aprova a iniciativa do projeto. Sua escola participa desde 1998 e atual critério de seleção foi redação seguida de entrevista com orientador vocacional. Sobre a participação dos alunos, ele pontuou que os alunos amadurecem sobre política e não falam do assunto apenas no pleito eleitoral. ''Os pais se surpreendem com os filhos e acham importante que eles conheçam o outro lado da sociedade'', informou o diretor.
Atualmente, dez câmaras municipais realizam projeto semelhante. Em Ibiporã, 154 estudantes já passaram pelo projeto, que é solicitado por várias cidades do Brasil.

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