Mais do que entretenimento e incentivo à leitura, a contação de histórias de contos de fadas podem auxiliar no desenvolvimento psicológico das crianças, resgatar valores, a auto-estima e ampliar o espaço da imaginação para a vivência de emoções que nem sempre são agradáveis, como raiva e ódio, mas que fazem parte do repertório de sentimentos humanos. Essa é a tônica do trabalho que vem sendo realizado há quatro anos nos Centros de Educação Infantil Santo Antônio, no Jardim Guanabara (região Sul) e Menino Deus, no Jardim João Turquino (na região Oeste), com aproximadamente 400 crianças. Mantidas em parceria com a Prefeitura, as duas instituições também dependem da ajuda de voluntários e colaboradores para a realização de suas atividades. À frente do trabalho, as irmãs da Congregação Missionárias Claretianas, responsável pela coordenação, pedagogas e psicólogas.
A Irmã Elza Maria Nunes de Paula, que é formada em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), contou que a idéia desse trabalho surgiu quando começou a funcionar o centro de educação infantil do Jardim João Turquino. Pela realidade difícil do bairro, era comum a violência permear a maior parte da conversa das crianças. ''As crianças sempre traziam para a sala de aula falas repletas de violência e angústia e nós, educadores, não sabíamos muito bem como lidar com isso'', relatou irmã Elza, chamada carinhosamente pelas crianças de ''tia irmã Elza''.
Diante do desafio, e por uma feliz coincidência, a instituição foi procurada por um grupo de profissionais que fazia parte da Ong Vir a Ser, interessado voluntariamente em refletir sobre as metodologias educacionais. Desse trabalho em conjunto, foi estabelecida a contação de contos infantis clássicos, nas versões originais, como forma de dar condições às crianças de reelaborarem um repertório psíquico mais saudável, onde a ''bruxa'' e o ''lobo mau'', por exemplo, podem ser percebidos de forma sutil e lúdica como arquétipos do nosso comportamento humano. A cada final de mês, a mudança de história é marcada com uma atividade que pode ser uma dramatização ou teatro de fantoches. E não é raro as crianças pedirem para a história ser repetida por mais de uma mês.
A rotina da contação de histórias começa desde os bebês e vai até os seis anos, quando as crianças passam para a fase escolar. Durante um mês é contada a mesma história, adequada à idade de cada criança. A repetição é encarada como uma importante aliada para ajudar na fixação dos conceitos que a história passa. ''Não damos a 'moral da história'. Os contos promovem a oportunidade das crianças falarem das próprias angústias, sem que a gente entre na questão do julgamento de valores'', destacou irmã Elza.
A capacitação dos profissionais envolvidos no projeto também é fundamental para o seu andamento e uma vez por mês eles passam por supervisão dada de forma gratuita e voluntária por uma profissional da área de psicologia. ''O contador de história precisa compreender a história que está contando, perceber suas nuances, para o trabalho dar certo'', comentou Rafaela Lucas Gonçalves Franco, aluna do último ano do curso de pedagogia na UEL.
Um exemplo é o que aconteceu com a professora Suely Guedes da Luz, que sentia dificuldades em contar a história de ''João e Maria'', que destaca a temática do abandono. ''Pensava que era a mãe das crianças que fazia aquelas maldades, mas, depois de uma leitura mais atenta, vi que era a madrasta e isso me ajudou a enfrentar essa situação. O educador precisa ser liberado internamente para participar desse trabalho'', afirmou Suely.
A aluna de pedagogia Rafaela também se encantou com essa forma de trabalhar os sentimentos a partir da literatura. ''Na minha formação universitária, na maioria das vezes, a literatura é vista apenas no aspecto pedagógico e não como resgate de valores sócio-morais, ligada à formação psíquica da crítica da criança, que na psicanálise chamamos de super-ego.''
O reconhecimento das próprias emoções pode ser exercitado através de um painel colocado na sala de aula que contém os nomes das crianças e várias expressões faciais de sentimentos. Diariamente as crianças são estimuladas a escolherem espontaneamente a ''carinha'' que melhor expresse seus sentimentos e a falarem sobre isso. ''A raiva é um sentimento que precisa ser admitido para que se possa aprender a melhor forma de direcioná-lo'', explicou Suely.
O professor de História Jorge Luiz Romanello, pai de Ana Clara, de cinco anos e meio, que há um ano e meio estuda no Centro de Educação Infantil Santo Antônio, acredita que o grande mérito do projeto é a a sua flexibilidade. ''É uma metodologia que não agride a individualidade da criança. Traz uma base ética e moral, mas não moralista. É uma atitude de respeito e democrática'', reforçou. ''Não é à toa que as histórias se tornaram clássicas. Por serem simples, têm a capacidade de ensinar'', acrescentou o professor.

Serviço:
- Pessoas interessadas em colaborar com doação de dinheiro, alimentos e materiais de limpeza ou trabalho voluntariado nas duas insttuições podem ligar para o telefone (43) 3339-0392.

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