A polêmica avança. Nos gabinetes oficiais, já se fala na elaboração de um projeto para o futuro Teatro Municipal, previsto para ser construído no terreno do antigo Colégio Londrinense, ao qual estava anexado o ginásio Colossinho.
Na oposição, articula-se um movimento contrário à proposta sob o argumento de que o local escolhido declarado de utilidade pública pela prefeitura desde agosto do ano passado seria mais adequado para abrigar uma unidade da rede americana de supermercados Wal-Mart, que estaria comprometida com a compra do imóvel.
A celeuma está nas ruas. O tema foi assunto numa sessão da Câmara de Vereadores. Nos últimos dias, a ''página do leitor'' da Folha de Londrina tornou-se tribuna para diversas vozes se manifestarem a favor desta ou daquela posição. No Calçadão, área central, corre um abaixo-assinado para pedir a revogação do decreto municipal que desapropria a área para a construção do teatro.
Já a comunidade artística, que até então mantinha-se em silêncio, começa a se mobilizar em defesa do empreendimento prometido pelo executivo. Anteontem, pela primeira vez, um grupo de produtores culturais reuniu-se para discutir o assunto com o objetivo de criar uma associação para acompanhar o andamento da questão e divulgar a produção cultural local.
''A idéia é trazer uma outra visão para o debate'' diz Mauro Rodrigues, professor de artes cênicas da UEL e organizador do encontro. ''Não somos contra a instalação do Wal-Mart em Londrina. Pelo contrário, o supermercado é bem vindo. Mas a população precisa saber que os festivais de teatro, música e dança movimentam uma grande quantidade de dinheiro e cujo montante também é recolhido em impostos e revertido para a própria comunidade''.
A polarização em torno dos benefícios econômicos trazidos pelo teatro ou pelo supermercado, contudo, não é o principal enfoque na plataforma dos artistas. O mote, segundo Rodrigues, é trazer à tona a riqueza não quantificável da arte priorizando uma maior divulgação do que se produz nesta área na cidade.
''Muitos londrinenses, especialmente das classes média e alta, desconhecem os artistas locais. Nunca viram o trabalho de Nitis Jacon, ignoram a dramaturgia de Mauricio Arruda Mendonça, pouco sabem das peças de Mário Bortolotto e deixaram Paulo de Moraes ir embora. Há finais de semana em que temos 8 espetáculos de grupos locais em cartaz, mas a elite que pouco sai de casa prefere assistir a uma montagem de fora'' argumenta ele.
O próximo passo dos produtores culturais cuja primeira reunião contou com representantes de teatro, dança, música e artes plásticas é convocar uma assembléia para efetivar a associação, que teria caráter transpartidário e multiinstitucional. ''A idéia é pensar não apenas na construção do teatro, mas na destinação dele'' acrescenta o professor.
A preocupação é compartilhada pelo poeta, dramaturgo e tradutor Maurício Arruda Mendonça. Também entusiasta da medida baixada pelo prefeito Nedson Micheleti, ele sonha menos com uma sala de espetáculos do que com a criação de um ''centro cultural'' que abrigue pequenas salas para a realização de atividades simultâneas.
''O espaço deve ser ocupado pela comunidade, tornando-se um lugar onde ela se veja e se encontre'' diz. Mendonça lembra que os teatros públicos existentes em Londrina não suprem a demanda de espetáculos. ''O (Cine Teatro) Ouro Verde mantém uma pauta extensa de atividades ligadas à Universidade Estadual de Londrina, além de não favorecer a programação de espetáculos menores por causa dos custos do aluguel. Já o Zaqueu de Melo, originalmente um tribunal de júri, é um espaço adaptado'' salienta.
Para o artista, o terreno agora disponibilizado para abrigar o Teatro Municipal retomará sua vocação cultural. ''O Colégio Londrinense foi um marco de ensino na cidade. Meu pai e meus tios deram aulas ali'' conta. Em sua reflexão, o atual debate carrega um teor simbólico. ''Sabe-se'' observa ele ''que o proprietário da rede Wal-Mart é considerado o Bill Gates do segmento de supermercados. Onde ele se instala, arrasa a concorrência. Por isso, os londrinenses terão que optar entre a cultura e a forma mais avançada do capitalismo avassalador''.
A diretora do Festival Internacional de Londrina (Filo), Nitis Jacon, não vê a questão de forma excludente. A cidade, segundo ela, oferece opções de imóveis para sediar tanto um teatro quanto um supermercado. ''Há alternativas para os dois lados. E se já existe um decreto desapropriando o terreno para o teatro, não sei o que estão querendo?'' questiona.
Nitis Jacon também discorda dos argumentos apresentados a respeito da geração de empregos, a maioria favoráveis à empresa multinacional. Ela argumenta que o futuro Teatro Municipal da forma como está sendo especulado, com anexos multimídia será capaz de provocar similar giro na economia local e regional: ''Os vários festivais existentes já criam uma mobilização intensa na cidade. A construção de um Teatro Municipal só ampliaria esse movimento. A cultura não pode, mais vez, ser deixada para depois. Há muito tempo, estamos sendo deixados para depois''.
O diretor do Ballet de Londrina, Leonardo Ramos, lembra que a construção de um Teatro Municipal é uma reivindicação histórica de várias gerações. ''Desde que cheguei a Londrina, no começo da década de 80, ouço falar sobre essa carência'' conta. ''De lá para cá, vi cidades próximas como Ibiporã, Maringá, Campo Mourão, Jacareziho e Telêmaco Borba construírem seus teatros. Aqui, passei pelo constrangimento de acompanhar representantes do Grupo Corpo (famosa companhia de dança de Belo Horizonte) desaprovando o teatro Ouro Verde como local para suas apresentações''.
Também ouvido pela reportagem, professor Alcides Carvalho remonta à administração do prefeito José Richa (entre 1973 e 1977) para escavar o primeiro projeto destinado à construção de um Teatro Municipal, previsto na ocasião para ser erguido ao lado do ginásio de esportes Moringão. A iniciativa foi retomada na gestão de Luiz Eduardo Cheida, entre 1993 e 1996, quando o próprio Carvalho assumiu a Secretaria Municipal de Cultura.
''Um arquiteto foi contratado e ele projetou a construção do teatro para o terreno localizado entre a Supercreche e PAI (Pronto Atendimento Infantil). A maquete ficou pronta. Depois, com a mudança da administração, o projeto foi esquecido '' recorda. O mesmo local é apontado por ele, hoje, como ideal para abrigar o empreendimento.
''Há ainda um espaço grande desocupado ali. Com a instalação do teatro, revitalizaríamos todo o Centro da cidade envolvendo os museus, os restaurantes e o terminal de ônibus. Isso prolongaria a vida noturna e eliminaria os focos de marginalidade'' declara, sem esconder a discordância pelo decreto municipal que opta pelo terreno do antigo Colégio Londrinense.
Na contramão dos demais entrevistados, Carvalho afirma que a Prefeitura gastará verbas ''que não tem'' para a aquisição do imóvel, sendo que poderia escolher áreas públicas disponíveis sem comprometer o orçamento da Administração. Além do terreno próximo ao PAI (na Rua Benjamim Constant), ele cita um aterro do Lago Igapó (próximo à Rua Humaitá, no caminho para a UEL) e um local próximo à Funcart (às margens do Lago Igapó) como alternativas mais viáveis para a construção do teatro.
O Secretário Municipal de Cultura Bernardo Pellegrini, por sua vez, explica que as verbas para viabilizar o empreendimento viriam de diversas parcerias a Fundação Banco do Brasil entre elas. ''O (deputado federal) Paulo Bernardo colocou uma emenda parlamentar no Orçamento da União de 2004 incluindo uma rubrica para destinar recursos para a desapropriação do terreno e construção do teatro'' revela ele. A controvérsia promete continuar.

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