Curitiba Trocar o teatro pelas ruas é um desafio para qualquer grupo artístico acostumado ao conforto, segurança e acústica de um espaço fechado, seja quando o assunto é música ou artes cênicas. O grupo curitibano Fato não só decidiu encarar o obstáculo, como adotou um projeto ainda mais audacioso. Desde o início do ano está se apresentado nas escolas públicas de Curitiba para um público em sua maioria formada por jovens e adultos que voltaram à escola depois de muito tempo sem estudar. No primeiro semestre, foram dez escolas municipais escolhidas. Agora, o grupo formado há quase uma década começa nova temporada tendo como alvo dez escolas estaduais, a maior parte delas localizada na periferia da cidade.
A rotina dos shows é bem diferente dos espetáculos a que o Fato estava acostumado. Dono de uma produção impecável, que exige muita iluminação e um cenário sempre muito bem cuidado, o Fato trocou essa realidade por uma estrutura bem diferente. Formado atualmente por seis integrantes, o grupo chega nas escolas durante o período da tarde e precisa montar o equipamento de som em silêncio para não atrapalhar as aulas. O ''palco'' é improvisado e a passagem e os últimos ajustes nos equipamentos sonoros são realizados no pequeno intervalo entre um período e outro das aulas. Os shows começam sempre no horário das primeiras aulas do período noturno, reunindo de 100 a 500 alunos, dependendo da escola.
A dificuldade, ao contrário de ser ressaltada, é tirada de letra pelo grupo. ''É um projeto muito gratificante'', diz Grace Torres, vocalista e tecladista da banda. Ela conta, por exemplo, que o grupo já se apresentou para um público que nunca tinha visto um show musical. ''E a resposta da platéia é maravilhosa'', diz. A idéia do projeto surgiu na década passada. Em 1999, o grupo decidiu inscrever a proposta na Lei Municipal de Incentivo à Cultura, benefício a que só teve direito no ano passado diante da demora da lei municipal em analisar e aprovar os projetos inscritos.
Para os shows, os grupos não cobram ingressos e o apoio das secretarias estadual e municipal de Educação se restringe à logística. As secretarias agendam os espetáculos nas escolas que oferecem educação especial para jovens e adultos e também coloca à disposição uma kombi para o transporte dos equipamentos.
O repertório é um mistura das músicas do grupo nesses nove anos de existência. ''Mas também incluímos músicas inéditas, que estiveram presentes na temporada do Atamancados', conta Grace. ''Atamancados'' é o show mais recente do grupo apresentado em maio deste ano. A maioria das músicas do espetáculo ainda não foi gravada.
A principal característica do Fato é a diversidade sonora a que os arranjos são submetidos. Eles começaram tímidos a utilizar as referências do folclore paranaense em suas músicas, a maioria com letras de compositores e poetas paranaeses. Mas desde o seu segundo disco, essa referência ficou forte na banda e passou a ser a marca registrada do grupo. Os integrantes utilizam não só os tamancos, como também criaram novos instrumentos a partir dessa referência. Nos shows apresentados nas escolas utilizam, por exemplo, um instrumento criado pelo baterista Zé Loureiro Neto feito com três pares de tamancos e ainda um colete confecionado com tela de arame onde estão dispostos vários objetos que são tocados com as baquetas das baterias.
''O contato com esses intrumentos originais mostra para os alunos e professores que é possível fazer música com material reciclado, eles ficam encantados com os objetos'', revela Grace. Ela ressalta ainda a responsabilidade social do projeto. ''Os shows acabam promovendo a formação de público. Os estudantes se interessam pelo estilo das músicas e também querem saber por que esse tipo de som não toca no rádio.'' Para responder a essas e outras questões, o grupo promove um bate-papo a cada final de espetáculo.
A temporada nas escolas encerra em setembro, cumprindo a previsão de 20 apresentações. ''Se soubéssemos que o resultado ia ser tão bom, teríamos previsto mais shows'', diz Grace. Mas quando acabar a temporada do projeto ''Fato vai à escola'', o grupo ainda tem muito trabalho. Já tem pelo menos dez músicas inéditas prontas e prepara outras que devem integrar o próximo disco.
Duas possibilidades estão sendo estudadas pelo grupo para a gravação do quinto CD. ''Podemos gravar com produção independente, como já fizemos com ''Oquelátá ao vivo'', mas também estamos aguardando a análise do projeto inscrito na lei de incentivo em 2000. De qualquer forma, o disco deve ser lançado no ano que vem'', adianta Grace.
O primeiro disco do grupo, intitulado ''Fato'', foi lançado em 1995, quando o ator Fabiano Medeiros ainda fazia parte da banda. Em 1997 foi lançado o álbum ''Fogo mordido'', com produção musical de Paulo Brandão, músico e produtor do grupo Aquarela Carioca. Em 1997 e 1998 o grupo viajou pelo Paraná e Brasil divulgando seu trabalho e, em 1999, o disco ''Fogo mordido'' foi lançado também na Europa pela produtora italiana Berimbau Produzione Artistiche S.N.C.
No ano 2000, o Fato lançou seu terceiro cd, ''Oquelatá Quelateje'', com produção musical de Rodolfo Stroeter, que já produziu discos de Gilberto Gil, Arnaldo Antunes e Mônica Salmaso. O disco foi divulgado com shows em todo o Paraná e também em São Paulo e Rio de Janeiro. No ano passado foi lançado a versão ao vivo do disco, produzido com recursos próprios.
A formação atual do grupo, além de Grace Torres, é Ulisses Galetto (baixo); Zé Loureiro Neto (bateria); Priscila Graciano (percussão); Gilson Fukushima (guitarra) e Alexandre Nero nos vocais.


Serviço:
- Segunda temporada do projeto ''Fato vai à escola''. Os shows acontecem sempre às 19 horas (veja quadro com programação) e são abertos para para a comunidade. Entrada franca.

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