INICIATIVA - BETHÂNIA sob a ótica da sensibilidade
PUBLICAÇÃO
domingo, 21 de janeiro de 2007
Liliana Onozato<br> Reportagem Local 
No final do ano passado, um recém-formado do curso de Jornalismo da UEL, entregaria à banca examinadora muito além do tradicional Trabalho de Conclusão de Curso (TCC). Prestes a completar 22 anos, Renato Forin Júnior sabia que apenas um patamar tinha sido alcançado para que sua obra não acabasse esquecida dentro de uma gaveta. Com o mote ''O Show Rosa-dos-Ventos: Desvendando o Processo de Significação Implícito no Espetáculo Musical de Protesto'', Forin fugiu ao senso comum da maioria dos fãs que admira a vida e obra de seus ídolos, e levou para o meio acadêmico sua inspiração. Agora, o jornalista nascido em Ibiporã pretende lançar um livro-reportagem sobre o espetáculo estrelado pela cantora Maria Bethânia, em 1971 - mais de uma década antes do nascimento do autor.
Para embasar a pesquisa escassa de bibliografia sobre o tema, ele se ateve a entrevistas com nobres peças-chave do espetáculo: Fauzi Arap, Caetano Veloso, Dorival Caymmi, Fernanda Montenegro, Ferreira Gullar, José Miguel Wisnik, entre outros nomes.
Forin ressalta que faltam os depoimentos de algumas personalidades para completar a ''polifonia'' do livro-reportagem. Nada mais pertinente, já que ''Rosa-dos-Ventos'' foi apresentado durante os ''tempos de chumbo'' da ditadura Médici em que não apenas os artistas (exilados ou não), mas todos os civis, nem imaginavam quando a censura terminaria. ''As pessoas estavam muito separadas na época, existia o silêncio da ditadura. Graças a Deus vivemos hoje numa democracia e eu posso juntar tudo isso e colocar num livro. E, inclusive, mostrar para os envolvidos'', reflete. Em meio às explanações do jornalista, a pergunta que não quer calar: 'Que aura é esta que circunda aqueles que sempre buscam mais?' Confira os principais trechos da entrevista que Renato Forin concedeu à Folha2.
O que o levou a pesquisar, a querer esmiuçar o espetáculo ''Rosa-dos-Ventos''? Quando essa idéia surgiu?
Minha paixão pela Bethânia é recente, foi mais ou menos no primeiro ano de faculdade, através do disco ''Maricotinha''. Eu lia muito sobre esse espetáculo nas reportagens e isso foi me despertando a curiosidade. Não tinha conseguido o vinil de ''Rosa-dos-Ventos'', então pra mim era desconhecida até 2004. Um amigo me enviou as faixas pela internet e percebi o quanto era forte. Mas eu não sei explicar muito bem por que escolhi esse espetáculo. Ele foi chamado de ''Show Encantado'' pelo Fauzi Arap, o diretor, e de fato foi encantado. Quanto mais eu pesquisava ia descobrindo que havia algo de sobrenatural e místico que puxa as pessoas e eu me incluo nisso. Algumas coincidências foram acontecendo comigo até que eu chegasse ao disco de ''Rosa-dos-Ventos''.
O próximo passo vai ser lançar um livro-reportagem tendo como ponto de partida a sua monografia. Você ainda não conseguiu entrevistar a Maria Bethânia, então o livro será publicado com ou sem essa entrevista?
Eu vou escrever o livro de fato, com uma linguagem mais acessível, como uma grande reportagem. O que eu quero é um livro que mostre a história de ''Rosa-dos-Ventos'', como ele surgiu, as questões místicas, e algumas interpretações. Eu não acredito que o livro saia sem a entrevista com a Bethânia, até porque a assessoria me deu uma grande abertura e só não deu certo até agora por questões de agenda.
Pretende conseguir apoio com alguma lei de incentivo, patrocínio ou lançá-lo de forma independente?
Se eu fico parado esperando a verba de um patrocinador, de uma lei de incentivo, obviamente os assessores de meus entrevistados vão me esquecer. Continuo a pesquisa, mas pretendo inscrever meu projeto, até porque eu não tenho condições de bancar sozinho uma publicação desse porte. Tem várias coisas envolvidas, como direitos de fotografia, dos desenhos dos figurinos. É um livro caro, todas as fontes estão em São Paulo, Rio e, algumas, na Bahia.
Um trabalho minucioso sobre ''Rosa-dos-Ventos'', como este que você está preparando, é algo inédito aqui no Brasil?
Sim, pela busca que empreendi na bibliografia da área. Ficou muito pouco do espetáculo para a história. ''Rosa-dos-Ventos'' aconteceu ao mesmo tempo de ''Gal a Todo Vapor'', que é imensamente mais comentado. Bethânia já é meio deixada de lado nas bibliografias, talvez por ter seguido uma carreira sozinha, sem seguir movimentos, e geralmente os livros que surgem são a respeito de movimentos. Se fala muito de Bethânia no ''Opinião''. E até hoje, muita gente acha que ''Rosa-dos-Ventos'' não tem conotação política. Isso eu quero mostrar: que Bethânia tem atuação política, tem sensibilidade e que ela, por si só, já é um movimento.
Você chegou a apresentar o seu projeto à Maria Bethânia?
Sim, rapidamente na Flip (Festa Literária Internacional de Parati), ano passado. Na verdade eu já falava semanalmente com a assessoria, então a Bethânia já tinha sido comunicada sobre projeto. É difícil para eles também, porque eu imagino a quantidade de fãs enlouquecidos que querem pesquisar, ou fazer algum trabalho com ela. Mas eu consegui entrar no camarim e me apresentei. Ela ficou super empolgada, perguntou como estava indo o trabalho. Então ela já tem o conhecimento, mas talvez não a vastidão real do meu trabalho.
Nesse espetáculo, além de envolver conteúdo político, há implícito também algum tipo de conteúdo existencialista?
Sim. Eu descobri ao longo das entrevistas que o ''Rosa-dos-Ventos'' tinha sido um marco na vida de Maria Bethânia. Primeiro pela questão política. Era um Brasil silenciado, 1971, Médici, tempos de chumbo da ditadura, Caetano e Gil exilados. As vozes que restaram eram Bethânia e Gal, que ainda ficava numa ponte-aérea Londres e Brasil. Mas a Bethânia ficou aqui - embora tenha feito algumas visitas ao Caetano - ela resolveu encarar a ditadura e fazer um show tão poeticamente construído, de uma forma tão perfeita que conseguiu burlar 13 censores que foram ao ensaio geral. Quando ela terminou o primeiro ato, eles aplaudiram em pé. Depois tem a questão estética. Bethânia, junto com os baianos, com as músicas de protesto que começam a surgir, vão trazer essa questão da teatralidade. E a questão mística, existencial, que eles não conseguem explicar muito bem. O Fauzi, diretor de teatro excepcional, tem essa questão do Jung que ele estuda e relaciona o esotérico com a psicologia. E eles já estavam numa faixa de energia mística pelo ambiente da época, por causa das drogas, entorpecentes, os hippies, então a sociedade vivia essa coisa esotérica e mística.
Quais artistas você também considera como referência? Há espaço para músicos ou grupos internacionais também?
Eu não ouço música internacional. Gosto muito de fado, mas estou começando agora a ter contato com a Amália. Eu sou muito apegada à palavra. Gosto de entender todas as faces da palavra, então eu pego um show, um disco, presto atenção em tudo que eles conseguem conferir dentro de uma única palavra. E eu não consigo enxergar isso nas músicas internacionais. Claro que eu tenho um certo conhecimento de inglês, francês, mas não o suficiente para fazer essa leitura da fluição estética, da fluição artística. Por isso sou louco pela música brasileira de qualidade - que a gente acaba encontrando em Chico, Caetano, Paulinho da Viola e outros que a Bethânia ''me apresenta'' colocando em cada disco. Escuto muito Arnaldo Antunes, Chico César... Se passou pelo crivo dela... (risos). À Bethânia eu devo a paixão pela música brasileira.


