Ingrid Betancourt faz crônica do cativeiro
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 30 de setembro de 2010
Sylvia Colombo<BR> Folhapress 
No dia 22 de fevereiro de 2002, a então candidata à Presidência da Colômbia, Ingrid Betancourt, estava no meio de uma entrevista à Folha de S. Paulo, por telefone, quando foi interrompida por assessores de campanha. Teve de cortar o papo, cujo tema era seu livro Coração Enfurecido (Objetiva), que acabava de ser lançado no Brasil. E pediu: Você pode me ligar na segunda, e aí completamos a matéria?
As coisas, como se sabe, não saíram como o planejado e Betancourt não pôde voltar a falar comigo na data que marcamos. E nem por muito tempo...
No dia seguinte, foi sequestrada perto de San Vicente del Caguán pelas Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia). Ficou em poder da guerrilha, na selva, até julho de 2008. Sua entrevista ficou marcada na minha agenda com tantas outras coisas que tinha de fazer. Não larguei esse caderno. Saber que tinha planos inconclusos me estimulava a continuar, disse, em nova entrevista, na semana passada, por telefone.
O assunto, desta vez, era seu livro mais recente, Não Há Silêncio que Não Termine título que poderia também ilustrar esse curioso e um tanto trágico episódio. Lançado ao mesmo tempo em sete idiomas, a obra relata o drama do cativeiro, as tentativas de fuga e as relações entre ela e outros prisioneiros e guerrilheiros.
Trata-se de um relato pessoal, em que sentimentos predominam e a política está no subtexto da narrativa. Há uma tomada de posição, sim. Tento expor o tempo todo o contraste entre o que eu acreditava que eram as Farc e o que eu descobri que elas realmente são, diz.
Para Betancourt, 48, a guerrilha opera numa estrutura stalinista de delação e desconfiança. Conta que, logo que libertada, assistiu ao filme alemão A Vida dos Outros [sobre espião que investiga a vida de casal de artistas] e que imediatamente identificou os paralelos com o comportamento das Farc. Há um prazer em observar os outros para reportar, para entregar. Entendo que vigiassem os prisioneiros com atenção, mas que se vigiassem a si próprios, para que não desertassem, para que não ficassem próximos demais dos prisioneiros, me assustou muito.
Hoje dividindo seu tempo entre as casas dos filhos, Mélanie, 25, em Nova York, e Lorenzo, 22, em Paris, Betancourt diz que a política não é mais prioridade. Tanto que não faz críticas ao atual governo de Juan Manuel Santos, sucessor de Álvaro Uribe, contra quem competia em 2002. O Exército faz hoje o melhor trabalho possível para conter as Farc.
Para ela, porém, a questão do narcotráfico já não é um problema apenas político ou militar, mas cultural. O povo colombiano acostumou-se com o sangue derramado, a morte e a violência. Hoje tem o coração endurecido e, com essa indiferença, não se pode exterminar o problema. É preciso que haja uma mudança de coração naquele país. Para o qual, pelo menos por ora, ela não pensa em voltar.
Ingrid Betancourt
VIDA
Nasceu no dia 25 de dezembro de 1961, em Bogotá, Colômbia
CONGRESSO
Assumiu em 1994 seu mandato na Câmara dos Representantes colombiana, no qual se manteve até 1998. Nesse ano, elegeu-se como a senadora mais votada do país
SEQUESTRO
Em meio à campanha eleitoral para a Presidência da República, Ingrid decide atravessar por terra uma região dominada por guerrilheiros. É capturada em 23 de fevereiro de 2002
LIBERTAÇÃO
Após seis anos de cativeiro, no dia 2 de julho de 2008, ela e mais 14 prisioneiros da guerrilha são libertados durante a Operación Jaque
SERVIÇO
Não Há Silêncio que Não Termine
Autor Ingrid Betancourt
Tradução Antonio Carlos Viana, Dorothée de Bruchard, José Rubens Siqueira e
Rosa Freire DAguiar
Editora Companhia das Letras
Quanto R$ 45 (553 págs.)


