Michele Muller
De Curitiba
O Festival de Teatro de Curitiba é imbatível em certos números: este ano, tem uma média de 32 apresentações por dia e faz a cidade receber cerca de 800 artistas do Brasil inteiro. Dos eventos teatrais do Sul do País, é o que mais investe em mídia e o único que conta com dez grandes patrocinadores. Até aí, o público não tem do que reclamar. O problema é que o festival é também imbatível no preço dos ingressos.
Assinantes da TIM Telepar Celular, estudantes e a classe artística desembolsam R$ 10,00 pela entrada nas peças da mostra oficial. Para os trabalhadores que não carregam um telefone celular na bolsa, o programa custa R$ 20,00 reais – o dobro do valor máximo que espectadores do Festival Internacional de Londrina, o Filo, pagam para ver as atrações. Já os gaúchos não gastam mais que R$ 5,00 para estarem na platéia dos espetáculos participantes do Porto Alegre Em Cena, outro dos mais importantes festivais de teatro do País.
O que faz o bolso do curitibano pesar é o fato do FTC ser organizado pela iniciativa privada, enquanto o Filo, orçado este ano em R$ 2,5 milhões, é promovido pela Universidade Estadual de Londrina (UEL) e conta com verbas arrecadadas através de leis de incentivo à cultura. Em Porto Alegre, o evento, cujo orçamento ainda não foi divulgado, é financiado pela Secretaria Municipal da Cultura.
Segundo o produtor Vitor Aronis, um dos donos da Calvin (empresa que organiza o FTC), o dinheiro arrecadado com a venda de ingressos precisa cobrir 15% de 1,5 milhão – custo total do festival. Para isso, quase todas as apresentações da mostra oficial precisam estar com a platéia lotada, já que, segundo Vitor, a média do valor das entradas cai para R$ 11,00 com a promoção da TIM. ‘‘Ano passado chegamos a ter um prejuízo de R$ 100 mil’’, garante. ‘‘Só continuamos a fazer o festival porque ele nos serve de cartão de visita para tudo. Ganhamos dinheiro promovendo outros eventos, como o Festival de Dança de Joinville.’’
O restante das despesas do evento é pago com verbas de patrocínio. A Secretaria Estadual de Cultura contribui com R$ 200 mil, a Copel, também do Estado, com R$ 100 mil e a prefeitura entra com R$ 200 mil. Assim, 30% do orçamento do Festival é pago com verbas públicas. Os outros 55% dependem do apoio fincanceiro de empresas privadas.
‘‘O poder público deveria participar mais. É um evento que divulga muito o Paraná, e por isso deveria contar com mais verbas do Estado’’, diz Vitor. ‘‘Só que o Paraná não tem somente uma cidade; tem outros 398 municípios e cerca de 200 festivais para apoiar. Se o Festival é em Curitiba, talvez a prefeitura pudesse entrar com mais dinheiro’’, rebate a secretária de Estado da Cultura, Lúcia Camargo.
Ela não concorda que o preço dos ingressos é exagerado. ‘‘Não acho o valor exorbitante. Vamos parar com essa história que o produto cultural tem que ser de graça!’’, desafia. Nisso, Vitor está de acordo com a secretária. ‘‘Se eu não pago para assistir a alguma atração, muitas vezes acabo nem saindo de casa. E não acho que o público dos espetáculos seria maior se os ingressos fossem mais baratos’’, opina.
Sua teoria pode ser derrubada numa conversa com as pessoas que se aglomeram no único ponto de venda de entradas, no Shopping Mueller. ‘‘A cultura teria que ser mais acessível. Como tenho que pagar o preço integral, tive que escolher apenas um espetáculo. E minha vontade era ver todos’’, lamenta a advogada Danielle Vernice. A estudante Raquel Dzerva conta que só pode participar do evento porque paga a metade do valor. ‘‘Se não tivesse a carteirinha da escola, não poderia ir a nenhuma peça.’’

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