Qual seria o maior cineasta vivo nesse início de século 21? O selecto grupo de mestres da sétima arte não é muito extenso, mas inclui ao lado de Michelangelo Antonioni, Manoel de Oliveira, Jean-Luc Godard, Alain Resnais, Billy Wilder e Shohei Imamura um velhinho sueco de 83 anos: Ingmar Bergman, lembra-se?
Após três anos de seu último trabalho para cinema, a obra-prima ''O Mundo de Luz e Sombras'' (In The Presence, SUE, 118 minutos), Bergman anunciou que está preparando ''Anna'', drama que retoma os personagens de ''Cenas de um Casamento'', uma de suas produções mais polêmicas, rodada em 1972.
O cineasta começará as filmagens de ''Anna'' em 14 de setembro de 2002; isso, ''se até lá não acontecer nada'', brincou Bergman em uma entrevista coletiva cedida a jornalistas do mundo inteiro. ''Anna'' é mais um filme destinado a TV, a exemplo de ''O Mundo de Luz e Sombras''. A rede de TV sueca SVT é novamente a financiadora do projeto.
A idéia surgiu quando Bergman trabalhava na tradução de uma obra do dramaturgo norueguês Henrik Ibsen. Estranhamente ele percebeu que ''esperava um filho'': ''Isto me surpreendeu muito. Depois de três meses de trabalho nessa tradução, descobri que esperava uma obra. Na velhice, estava 'grávido', como Sara na Bíblia. No início, me senti enfermo. Que o desejo voltasse, era para mim totalmente assombroso e inesperado''.
O cineasta convidou seus companheiros de ''Cenas de um Casamento'', a diretora e atriz norueguesa Liv Ullmann e o ator Erland Josephson, para ressuscitar os personagens de Johan e Marianne, que ambos encarnaram há quase trinta anos, em um filme realizado primeiramente para a televisão e depois montado para o cinema.
''Escrevi sem pensar em um suporte particular, inspirando-me no modelo com o qual Johann Sebastian Bach compôs sua última obra: para duas vozes, mas sem definir os instrumentos que deviam interpretá-las'', explicou o criador de ''Morangos Silvestres'' e ''O Sétimo Selo''.
O papel de Anna será interpretado pela jovem Julia Dufvenius, que Bergman dirigiu recentemente em ''Mary Stuart'', peça do dramaturgo alemão Friedrich von Schiller. Sobre o roteiro, o cineasta assegura que não escreveu a continuação de ''Cenas de um Casamento'': ''Os personagens do filme são familiares e o enredo dramático põe em funcionamento naturalmente a minha imaginação'', disse. Bergman também lembrou que se diverte com seus projetos como quando dirigia, em criança, seu pequeno teatro de marionetes, reproduzido em ''Fanny e Alexandre'' (1982).
Resta agora uma dúvida. Será que ''Anna'' terá o mesmo destino que ''O Mundo de Luz e Sombras''? Esse último filme de Bergman foi exibido em Cannes, em 1998, na mostra paralela ''Un Certain Regard'' (Um Certo Olhar). No Brasil, foi exibido pelo canal pago Multishow, da Net, em 16 de julho daquele ano, em homenagem aos 80 anos que o diretor completava. Até hoje, a última obra-prima do mestre sueco permanece inédita no Brasil nos formatos VHS e DVD, além de nunca ter sido exibida nos cinemas.
Apesar de voltar à produção cinematográfica, Bergman continua recluso às Ilhas Faro, sem convívio social. Desde que sua esposa, a atriz e diretora Ingrid Thulin faleceu há seis anos, Bergman vinha se declarando afastado da sétima arte. Dizia que passava o tempo pescando e revendo alguns filmes, como ''Rashomon'', de Akira Kurosawa, uma de suas fitas prediletas. Atualmente, ele dá os retoques para a encenação no Teatro Dramático de Estocolmo de ''Um Inimigo do Povo'', de Ibsen, que estreará no próximo dia 16 de dezembro.

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