Cannes - Já não há dúvida: a qualidade da seleção oficial do Festival de Cannes deste ano é superior a do ano passado. Mas embora alguns candidatos sejam de alto nível, com os demais em sólida faixa intermediária sem resvalar para o descarte, ainda não surgiu o filme que faz a diferença, aquele capaz de provocar um choque sísmico entre a crítica e o júri, talvez em busca de uma quase unanimidade que leve à Palma de Ouro, a ser revelada hoje.
Ausente ano passado, a armada inglesa desembarcou neste 55º Festival Internacional de Cannes com vigor e estilo. Não a armada real, aristocrática, burguesa, mas uma proletária, que injeta ânimo novo e reafirma a tradição britânica de um cinema social forte. Três filmes, sobre a Grã-Bretanha contemporânea, podem aspirar a prêmios:
‘‘24 Hour Party-People’’, de Michael Winterbottom, é um movimentado revival sobre 20 anos de rock inglês realizado com olhar crítico e original. Winterbottom, que aos 41 anos já é raposa velha em Cannes - concorreu duas vezes, esteve outras duas fora de competição, foi membro do júri -, resgata a histórica cena musical de Manchester (e seu background social) e sua famosa casa noturna La Hacienda, e as bandas que marcaram o período a partir do final dos anos 70, cobrindo toda a década de 80: Joy Division (depois New Order), Sex Pistols, The Clash, Moby. Gravado em vídeo digital, ‘‘24 Hour Party People’’ é uma bem traçada, divertida e nostálgica crônica ‘‘sexo-drogas-rock-and-roll’’ sobre a pop music inglesa.
‘‘Sweet Sixteen’’ é de outro veterano de Cannes, Ken Loach, alguém que aos 66 anos pode ser chamado de ‘‘o último grande socialista do cinema’’. Mas não é um dinossauro, longe disso, como deixou muito claro na entrevista que concedeu à Folha ano passado no Festival de Veneza. Seus filmes são de uma veracidade, uma coerência e uma dignidade à toda prova, sempre ausentes o aborrecimento do dogmatismo de cartilha e a pose da panfletagem inconsequente. ‘‘Sweet Sixteen’’ é a segunda parte de uma trilogia iniciada em 98 com ‘‘Meu Nome é Joe’’, tendo Glasgow como cenário de fundo. Tematicamente, o filme bate sem piedade na ‘‘cultura do desamor’’, como definiu Loach durante a coletiva. O adolescente escocês retratado aqui é um ser em busca da vida familiar que nunca teve - ele espera que a mãe saia da prisão para retomar a convivência -, fruto deslocado de uma cidade industrial fria, desumana, por um lado abundante mas igualmente geradora de pobreza material e marginalidade afetiva. Liam, esperto e engraçado, enfrenta um destino praticamente traçado em que não há quase nada a fazer, a não ser aquilo que o filme torna penosamente previsível. Ninguém sai indiferente desta cruzada social alarmante empreendida por Ken Loach.
‘‘All or Nothing’’ é por inteiro o território do diretor Mike Leigh, Palma de Ouro em 96 por ‘‘Segredos e Mentiras’’. Pessoas anônimas, da classe operária de Londres, sempre próximas do desespero. Esta a matéria-prima humana de Leigh, aqui transitando muito à vontade em área que conhece muito bem. Em foco, durante fim de semana prolongado, as vicissitudes de alguns vizinhos habitantes de conjunto habitacional. Os eleitos da afeição de Mike Leigh são personagens sem qualquer glamour, controlados com mãos hábeis e sutis. São pessoas do cotidiano cinzento, como o taxista Bill, a mulher Penny, caixa num super-mercado, e os filhos Rachel, empregada em asilo para idosos e Rory, adolescente ainda sem emprego. Ambos obesos. Há ainda os citados vizinhos, que completam um painel emocional em permanente disfunção. Entre os detalhes de comportamento surge vez ou outra uma espécie de involuntário humor, quase sempre orgânico. Esta é uma espécie de drama rigorosamente ordinário sobre a solidão e a dificuldade de encontrar e expressar amor. E como o título indica (‘‘Tudo ou Nada’’), é um filme também sobre a frágil e terrível linha que separa a felicidade do desespero, a alegria da sofrimento. O tema, de resto globalizado, pode dar a ‘‘All or Nothing’’ grandes recompensas.
Britanicamente distante, vez ou outra até lembrando um de seus personagens, o diretor Mike Leigh conversou com a ‘‘Folha’’, numa suíte do Hotel Carlton, na Croisette. Confira os principais trechos da entrevista:
O senhor tem fama de diretor que gosta de improvisar. Quanto de improvisação existe em ‘‘All or Notthing’’?
Há uma considerável quantidade de improvisação envolvida no desenvolvimento e na pesquisa de meus filmes. Em ‘‘All or Nothing’’ gastamos seis meses pesquisando, tempo maior que o normal, desenvolvendo todo o universo dos personagens. O que filmamos, no entanto, é muito preciso, nada é improvisado à exceção de pequenos gestos diante da câmera.
De que o senhor gosta mais, escrever ou dirigir?
As funções são indivisíveis. Eu escrevo o roteiro durante toda a pesquisa. Escrever e dirigir são absolutamente o mesmo partes do mesmo processo. Eu não dirijo o que outros escrevem, e outros não dirigem o que eu escrevo.
Não há grandes nomes em seus elencos. Há alguma razão artística?
Há uma razão artística e outra prática, ambas ligadas entre si. Gostaria também de dizer que a resposta depende do que você chama de grande nome. Eu trabalho regularmente com Timothy Spall (NR: ator principal de ‘‘Tudo ou Nada’’), que para mim é um grande nome. O que interessa é que não trabalho com qualquer ator, e também não trabalho com qualquer ator que não está interessado na minha maneira de trabalhar.
O que significa o Festival de Cannes para o senhor?
Cannes é o evento cinematográfico número um do mundo, e o que é melhor, completamente livre de Hollywood. Está fora da máquina imperialista hollywoodiana. Aqui, eles não podem interferir ou controlar. Além disso, se você tem a sorte de estar na seleção competitiva, isto dá ao filme uma boa plataforma para lançá-lo no mercado internacional.
E ganhar a Palma de Ouro, ajuda a fazer outros filmes?
O prêmio coloca o diretor no mapa internacional da produção. Antes de ‘‘Segredos e Mentiras’’ eu tive sorte de ser apoiado por companhias inglesas como Channel Four, British Screen e First Independent.

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