São Paulo, 18 (AE) - Um espetáculo que retrata a nossa geração sem perspectiva de trabalho, apesar de viver numa época cheia de ofertas nas vitrines. Assim a atriz Silvia Buarque define "Shopping e Fucking", peça do inglês Mark Ravenhill, que estréia amanhã no Sesc Pompéia. Sob direção de Marco Ricca, Silvia atua no elenco, integrado ainda por Ricardo Blat, Edu Guimarães, Laerte Mello e Rubens Caribé.
"Como dizia Cazuza, nosso tempo é bom, temos tudo de montão", lembra Silvia. "Temos tudo e não podemos nada." Esse é o tom do espetáculo com o qual Ricca aposta atrair um público jovem, a exemplo do que ocorreu na Inglaterra, onde "Shopping e Fucking" estreou. Atualmente, o texto de Ravenhill já está traduzido em vários idiomas e foi encenado também na Broadway.
No palco, Silvia interpreta Lulu, que divide o apartamento com seu namorado bissexual, Robbie (Caribé), e Mark (Ricardo Blat). Enquanto o casal se envolve com um traficante de drogas (Mello), Mark faz o mesmo com um garoto de programa (Guimarães). A indiferença diante de um cotidiano violento, o consumo de drogas, o homossexualismo e a crise do afeto são alguns dos temas. Com tudo isso, a peça chegou a ser acusada de moralista por um crítico americano, uma vez que o objetivo do autor é mesmo criticar esse universo de mercantilização das relações, cada vez mais descartáveis.
O personagem interpretado por Blat, por exemplo, tenta curar-se da "doença" de envolver-se afetivamente com as pessoas. "Defender-se das relações afetivas é como ir a Paris e não sair do hotel", compara Blat. "No entanto, as pessoas estão cada vez mais tomando uma atitude semelhante a essa diante da vida, protegendo-se em seu mundinho." Numa cena, seu personagem chega a dizer nunca ter tido nenhuma sensação na vida que não tenha sido quimicamente induzida. "Mas sua última fala da peça é sobre a liberdade, sobre o risco, necessário, de andar com as próprias pernas."
Para o Blat, cujo último trabalho teatral apresentado em São Paulo foi "Na Solidão dos Campos de Algodão", de Koltés, a peça dá continuidade à sua busca como artista. "Na peça de Koltés, o tema era a manipulação dos desejos; em "Shopping e Fucking", meu personagem pergunta a si mesmo se ainda existe algum sentimento puro." Ou seja, ambas as peças provocam uma reflexão sobre a real liberdade de escolha num mundo bombardeado pela publicidade e pelo excesso de informações.
"Sou de uma geração que viveu o sonho coletivo de mudar o mundo e essa peça fala de uma outra turma, daquela que nasceu quando o sonho já tinha acabado", diz Ricca. "Gostaria muito de conseguir atrair essa garotada, sem subestimar sua capacidade de reflexão." Na concepção de Ricca, a personagem feminina é a que melhor concentra o misto de consciência e impotência diante de valores tortos e do individualismo exarcerbado. "A peça fala de coisas muito reconhecíveis", afirma Silvia. Serviço: "Shopping e Fucking". De Mark Ravenhill. Direção de Marco Ricca. Duração: 1h45. De quinta a sábado, às 21 h; domingo
às 18 hs. De R$ 5,00 a R$10,00. Teatro do Sesc Pompéia. Rua Clélia, 93, tel. 3871-7777. Até 29/8

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