Com as estréias de ''Escrito nas Estrelas'' e ''Pequenos Grandes Astros'', já em exibição nas salas de Londrina (veja a programação de cinema nesta página), está completo o quadro de apelos que o exibidor providenciou para o sempre mais lucrativo período de Natal. Cada um à sua maneira, ''Harry Potter'' e ''Stuart Little'' prevalecem em termos de qualidade. Exceção das exceções, ''Fale com Ela'' é ''hors concours'' absoluto, perfeito estranho neste diversificado ninho de entretenimento, a rigor e afinal inconsequente.
Pena que o cinema brasileiro não tenha fôlego industrial e cineastas menos ''geniais'' e ''definitivos'', vale dizer, não tenha simplesmente gente apenas competente para resgatar uma dívida permanente: o cinema com o futebol como tema, o jogo mágico no campo e a paixão explosiva na alma. Não há uma temporada hollywoodiana sem que o mercado mundial seja invadido por filmes sobre beisebol, futebol americano, basquete e até golfe, goste-se ou não das modalidades, boa parte delas com pouca ou nenhuma afinidade com o nosso público.
Para o fim de ano, os distribuidores estão agora desovando este ''Pequenos Grandes Astros'', lançado em junho nos EUA e veículo com múltiplas e óbvias finalidades: para o jovem rapper Lil'Bow How (quem vê MTV conhece o hit ''Take Ya Home'', da trilha sonora do filme), para a todo-poderosa NBA e para a famosa grife globalizada de material esportivo. Bow How interpreta Calvin Cambridge, 14 anos, adolescente e órfão com sonhos de fama mas também de adoção por uma família que o acolha. A vida do garoto muda quando o Exército da Salvação manda roupas usadas para o orfanato. Entre elas, um par de tênis puído ou explicitamente detonado com as iniciais MJ. O diretor John Schulz pede então à platéia que deixe de lado qualquer manifestação de descrença ou incredulidade, em nome das maquinações da trama, e quando Calvin coloca os tais tênis, ele adquire os superpoderes de...já adivinharam? Claro, o velho e bom fenômeno Michael Jordan. Mas apesar do sucesso instantâneo nas quadras, Calvin no fundo só quer mesmo que alguém o adote. E aí a clicheria em torno do tema é abundante, abrindo espaço para um previsível happy end, apesar das ameaças que correm paralelamente nesta nova versão de Cinderela, que tem nas atuações naturalistas e na movimentação em quadra os maiores apelos para o grande público.
Os bons sentimentos também rondam ''Escrito nas Estrelas'', trabalho rotineiro confeccionado por atávicos realizadores do rótulo ''comédia romântica'', no caso Peter Chelsom. Na véspera de Natal, um homem e uma mulher (John Cusak e Kate Beckinsale) se conhecem de maneira acidental numa grande loja de departamentos, passam juntos uma noite inesquecível e se separam sem cruzar uma só informação, confiando que o destino um dia os colocará frente a frente de novo. Sete anos depois, quando os dois estão a ponto de se casarem com seus respectivos pares, um e outro sentem que devem se reencontrar. E é óbvio que isto acontece ao final do filme, porque do contrário ''Escrito nas Estrelas'' seria uma obra revolucionária. Mas é apenas uma historinha leve e assistível, uma homenagem ao destino, à sorte ou ao azar, àquela probabilidade regida pelos deuses ou pelos astros, à habilidade de descobrir coisas extraordinárias só por acidente. O roteiro de um filme como este é afinal apenas um exercício lúdico, uma espécie de sessão de cartomancia que se apóia no sempre crédulo e fantasioso imaginário do espectador. E no escuro do cinema a coisa funciona ainda melhor.

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