Influência da literatura é marcante em seu novo disco
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 03 de dezembro de 1998
Luiz Zanin Oricchio Agência Estado 
Na entrevista, Chico Buarque diz que procura honrar o rigor formal da escrita do pai. Para lembrar: Chico é filho do historiador Sérgio Buarque de Holanda, autor de vasta obra, mas também, e principalmente, de um pequeno volume chamado Raízes do Brasil. Um pequeno-imenso volume, na verdade, pois mantém sua influência sobre o pensamento nacional desde quando foi publicado na década de 30. Naquele livro cada palavra é pesada e medida. Nele, nada existe por acaso.
É o que se sente também ao ler o trabalho do escritor Chico Buarque, em especial o das últimas novelas, Estorvo e Benjamim. Nos dois livros, vê-se em cada página a preocupação com a escolha da palavra exata, do mot juste, coisa que custa paciência, talento - e tempo. Mas o cuidado com a precisão não é tudo. Nas duas novelas, Chico trabalhou de forma especial a questão do ponto de vista narrativo. Nos dois casos, a linearidade é abolida em favor da fragmentação, a multiplicidade de pontos de vista substituindo o olhar onisciente do narrador clássico.
Essa imersão no trabalho literário parece ter repercutido mais profundamente do que se pensa na obra do compositor Chico Buarque de Holanda. Nem poderia ser de outro modo, já que se trata de um único e mesmo sujeito artista, expressando-se por dois meios distintos. O compositor dialoga com o escritor, e vice-versa, como deveria ficar claro ao se escutar seu CD mais recente, As Cidades. É visível a presença do escritor na construção das letras. Por exemplo, nas aliterações de Carioca: O povaréu sonâmbulo/Ambulando/Que nem muamba. Ou em Iracema, uma das canções politizadas, falando da emigrante na América - um anagrama do seu nome próprio, que remete ao romance de José de Alencar, e, talvez, ao belo filme de Orlando Senna e Jorge Bodansky. Faz referência a Calderón de la Barca, autor de La Vida Es Sue¤o, em Sonhos Sonhos São, e a Guimarães Rosa em Assentamento.
Enfim, as ligações com o universo literário próprio e alheio são bastante evidentes no trabalho de Chico e se intensificaram neste CD. E não apenas nas letras. No plano musical, propriamente dito, sente-se a presença da noção de descentramento, que informa a literatura de Chico. Claro, ele é um compositor popular e opera no interior do sistema tonal. Mas melodias e harmonias são cada vez menos evidentes. O grau de previsibilidade melódica, de redundância, diminuiu consideravelmente, o que explicaria a dificuldade do disco.
Isso quer dizer que fica mais complicado sair cantando de cara a melodia recém-ouvida. Você sente um eco de Debussy em A Ostra e o Vento, feita para o filme de Walter Lima Jr.; não sabe como o acorde vai resolver-se em Carioca ou em Injuriado, sem falar em Você, porque neste caso o labirinto harmônico se deve ao parceiro, Guinga. Se as letras são construídas de modo a expressar ambiguidade, as melodias as acompanham nesse grau de incerteza. Completam-se. Chico, mais uma vez, toma o pulso do seu tempo.


