Infância entre dois mundos
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quinta-feira, 02 de novembro de 2006
Katia Michelle<br> Equipe da Folha 
Curitiba - O cineasta Cao Hamburguer não fala muito. É um rapaz de poucas palavras, mas tudo que ele tem a dizer pode ser ''visto'' nos seus filmes. O mais recente, ''O Ano Em Que Meus Pais Saíram De Férias'', que está entrando em circuito nacional, prova isso. Película sensível, o filme é levemente inspirado na própria vida do diretor, uma judeu-católico apaixonado por futebol. Além de um roteiro coeso, feito a oito mãos (assinam também Cláudio Galperin, Bráulio Mantovani e Ana Muylaert) o longa não deixa arestas quanto à direção. Mistura atores-mirins que nunca tinham estado em um set de filmagens, mas nem por isso deixam a desejar, com atores experientes, como Paulo Autran, Caio Blat e a curitibana Simone Spoladore, que apesar da pouca idade já acumula bons trabalhos na tela.
Filmado no final do ano passado e ambientado na década de 70, o filme teve orçamento de R$ 5,2 milhões, considerado ''apertado'' pelo diretor para um longa que reconstitui uma época. Além dessa restituição impecável, o filme tem ainda um outro trunfo: as crianças Michel Joelsas no papel de Mauro e Daniela Piepszyk, como Hannah. Escolhidos entre centenas de crianças, os dois participam pela primeira vez de um longa-metragem e já merecem destaque.
O longa conta a história de Mauro, um menino de 12 anos que é deixado pelos pais em frente ao prédio do avô, no mesmo dia em que este morre. O garoto é obrigado a viver numa comunidade judaica, bastante estranha para ele, enquanto espera o retorno dos pais. É quando conhece Hannah e Sholomo (Germano Haiut) e também se envolve com uma cultura completamente diferente da que conhece. Sem clichês ou lugares-comuns, o filme é um convite para a emoção. O diretor concedeu entrevista à Folha sobre o trabalho. Acompanhe.
Como surgiu a idéia de realizar esse filme?
Não foi uma idéia que surgiu pronta, foi sendo construída aos poucos. Surgiu da vontade de falar sobre alguns assuntos. Eu queria falar um pouco sobre o povo brasileiro formado por diferentes culturas e de como isso é rico. Como aquela música dos Titãs que diz que 'riquezas são diferenças'. Também tive vontade de falar da época da minha infância, vivida nessa década de 70...
Você é descendente de judeus também, assim como o personagem do filme?
Sim, sou como o personagem. O Germano (Haiut), que é o ator do filme, me chama de Caju, que é católico com judeu. E eu sou como o Mauro, metade judeu e metade católico. Sou fruto dessa mistura, dessa coexistência saudável entre culturas e é um pouco disso que eu quis falar. E também falar da infância como um período tão importante na nossa formação. Na nossa estrutura emocional, psicológica e na nossa ética.
E como foi construído esse roteiro, que coloca num mesmo argumento coisas tão distintas, como essa situação da infância, a cultura judaica, o futebol...
Então, com esse pântano de idéias diferentes, fui montando a história, usando coisas da minha vida e coisas da vida do Claudio Galperin. São quatro roteirista, mas eu e o Cláudio fizemos o argumento principal. Ele inclusive morou nesse bairro Bom Retiro (SP), que é onde se passa a história. Então a gente foi montando essa história que de certa forma vai contemplando todos esses assuntos, mas no final das contas o que é mais importante é a história dos personagens. O que eu me preocupei mais no roteiro e na direção do filme é de os personagens serem muito fortes e completos e a relação entre eles ser o principal. Todo o resto virou pano de fundo. Foi bem interessante o processo.
E foi um salto muito grande entre esse filme, tecnicamente mais simples, e o Castelo Rá tim Bum, que tinha uma infinidade de efeitos especiais ?
São dois filmes com registros bem diferentes. O Castelo Rá Tim Bum é um filme para infância, uma fábula, uma aventura fantástica e fantasiosa. E esse filme é uma aventura realista, totalmente realista, e contando uma história de uma forma quase documental. De vez em quando, ele aparece um documentário. São duas linguagens totalmente diferentes e por isso é gostoso fazer. Para renovar, não ficar se repetindo e tentar sempre novos desafios. Eu tinha feito uma série para televisão que chama ''Filhos do Carnaval'', em que eu já estava desenvolvendo mais esse lado realista e que também é para adulto. E foi bom eu ter feito entre o ''Castelo'' e o ''Ano'', esse documentário justamente para desenvolver essa linguagem.
O ''Ano'' traz imagens reais também?
Sim. Traz algumas imagens de época, da Copa do Mundo de 1970 e da comemoração. Teve uma pesquisa nesse sentido, mas não é o mais forte do filme. É um detalhe, uma cereja. Para quem gosta de futebol e lembra o que aconteceu naquela época é uma cereja em cima do bolo.
E como está sua agenda agora? Você está com novos projetos para televisão ou mesmo um novo filme?
Estou com um projeto de longa-metragem que é outra linguagem bem diferente, é um filme de terror, adulto. Por enquanto estou chamando de UTI. Nele eu falo um pouco da relação com a morte. A idéia da morte, a certeza da morte está no nosso cotidiano, mas a gente não fala disso.
Você pretende voltar a trabalhar com o público infantil? Como você avalia a produção nacional para esse público?
Vou, sim. Um dia eu volto. Mas o cenário é triste. Se bem que a gente fez um programa que está dando muito certo: ''O Menino Muito Maluquinho''. Eu fiz a concepção original a partir da idéia do Ziraldo. Mas olha, tirando as reprises da TV Cultura e o Cocoricó, não tem mais nada na televisão brasileira. É uma tristeza, uma pena.


