Inezita Barroso comemora 45 anos de carreira e lança seu 77.º disco
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sexta-feira, 17 de dezembro de 1999
Por Mauro Dias 
São Paulo, 17 (AE) - Inezita Barroso lança, no início da semana que vem, seu 77.º disco. Entram na conta os bolachões de 78 rotações por minuto, os compactos duplos e simples, os LPs de 10 e 12 polegadas e os CDs. Na segunda-feira, ela estará autografando "Sou mais Brasil" (gravadora CPC-Umes) na Mirage Music (Rua Iguatemi, 244), a partir das 19h30. Vai cantar o repertório do novo disco, acompanhada por César do Acordeon e seu regional. Na terça-feira, outra festa de lançamento, no Sesc Vila Mariana (Rua Pelotas, 141), a partir das 18h30. Dessa vez, estará acompanhada por Isaías e seus chorões.
"Sou mais Brasil" comemora os 45 anos de carreira de Ignez Magdalena Aranha de Lima, Inezita Barroso, cantora, atriz, professora universitária de cultura brasileira, apresentadora de rádio e televisão - seu programa "Viola, Minha Viola", que a TV Cultura apresenta aos sábados, às 21h30, está há 20 anos no ar. Inezita fez sete filmes, nos anos 50, ganhou o Prêmio Saci de melhor atriz com "A Mulher de Verdade", de Alberto Cavalcanti, e abandonou o cinema porque Cavalcanti, que queria dirigi-la em outra produção, estava em dificuldade financeira.
Seria um filme sobre a Guerra do Paraguai. Apareceu um co-produtor mexicano e a história original foi descaracterizada. Inezita resolveu ficar só no canto. Só? Ela é um totem. "Inezita Barroso é sinônimo de muitas coisas", escreve o jornalista Arley Pereira, no texto de apresentação do disco. "Seu sinônimo principal, porém, é Brasil", continua. Nascida em São Paulo, começou a cantar e a tocar violão ao 7 anos, depois foi ao piano, casou-se, deixou a música, voltou a ela e tornou-se a mais radical das defensoras das vozes interioranas.
Canta música caipira de fato. "Caipira de Fato" é nome de um de seus discos recentes: Inezita faz questão de assumir o sotaque do interior, que defende como um ideal de pureza, beleza com algo de nostalgia e gotas de humor sapeca - como na "Moda da Pinga" (domínio público), por exemplo, que regravou para esse "Sou mais Brasil". Regravações - O disco tem várias regravações e muitas participações especiais. A última faixa é "Lampião de Gás", um de seus clássicos, música composta por Zica Bergami. Inezita canta a valsa evocativa acompanhada pela Orquestra Sinfônica de Tatuí. Ela abre o disco com "Viola Enluarada", de Marcos e Paulo Sérgio Valle, acompanhada pela viola do professor (é preciso chamá-lo de professor) Roberto Corrêa.
Cabe lembrar que, no fim dos anos 60, às vésperas da edição do famigerado Ato Institucional número 5, os irmãos cariocas (praianos, da zona sul do Rio, de classe média alta) Marcos e Paulo Sérgio Valle escreveram "Viola Enluarada" como uma "toada moderna". Toada era música do interior, caracteristicamente de Minas, São Paulo e, na descida do Vale do Paraíba, do Estado do Rio.
A bossa nova era uma fórmula esgotada (não havia mais o que inventar; estava cristalizada, embora não morta, como continua viva) e o País foi procurar sua cara fora de Ipanema (ainda que os irmãos Valle fossem de Ipanema). Encontraram a toada, estilizaram-na. Encontraram, na verdade, Inezita Barroso. Por acaso, ela jamais cantou antes "Viola Enluarada". Mesmo que a canção fosse dela, por direito, desde a introdução.
"É uma música linda, que guarda certa dubiedade, pois é caipira e ao mesmo tempo não é caipira", diz Inezita. "Mas ninguém a gravou com acompanhamento de viola caipira, como fiz agora". Enfim, pondo as coisas no lugar. Músicos - Roberto Corrêa (com quem ela gravou, voz e viola, os dois discos anteriores a esse) e a Sinfônica de Tatuí são apenas dois convidados especiais da festa de 45 anos de música de Inezita. Ela quis valorizar os músicos, aqueles com quem já gravou, os que participam de seu programa, os que admira. César do Acordeon, com seu regional, a acompanha em "A Saudade Mata a Gente", de Antônio Almeida e Braguinha. O violonista Natan Marques faz o ponteio.
O violonista e compositor Théo de Barros fez o arranjo e acompanha Inezita em Cuitelinho, domínio público, tema recolhido por Paulo Vanzolini; Francisco Araújo e Toninho Carrasqueira estão em "Nhapopê", tema recolhido por Villa-Lobos. Em "Procissão da Sexta-Feira Santa", o autor, Paulinho Nogueira, acompanha a cantora, secundado pelo acordeonista Toninho Ferragutti. Ele está com ele também em "No Bom do Baile", de Barbosa Lessa. Em "Pingo dágua", obra-prima de Raul Torres e João Pacífico, aparecem Caçulinha e Natan Marques e em "Meu Casório", folclore do interior paulista, o convidado é Tião do Carro.
Talvez não fosse necessário dizer: Inezita Barroso, aos 75 anos, canta melhor do que nunca. Está linda como sempre - houve um tempo em que não lhe percebiam a beleza: "Eu não tinha a cara da época, uma morena de cabelo liso, descendente de índio
quando o Brasil aplaudia as louras de cabelo cacheado", diz, achando graça. O Brasil tem cara de índio. Pondo as coisas no lugar, Inezita Barroso é a cara do Brasil.


