Uma biografia, uma fotobiografia e o lançamento dos dois primeiros volumes da obra completa, com vários textos inéditos em livro, constituem o que se poderia chamar de ‘‘pacote Fernando Pessoa’’, a chegar às livrarias brasileiras neste fim de ano.
Os primeiros dos mais de 23 volumes que sairão por aqui até meados do ano 2005 são ‘‘Mensagem’’ - única obra em português publicada pelo poeta em vida - e ‘‘Ficção do Interlúdio’’, com poemas de Pessoa e seus heterônimos Ricardo Reis, Alberto Caeiro e Álvaro de Campos.
Em ‘‘Ficções...’’ estão alguns dos poemas mais famosos de Pessoa, como ‘‘Tabacaria’’, assinado por Campos, e ‘‘Autopsicografia’’ (‘‘O poeta é um fingidor./ Finge tão completamente/ Que chega a fingir que é dor/ A dor que deveras sente’’).
Apesar de já haver sido publicada no Brasil pela Aguilar, a obra completa de Fernando Pessoa chega agora com a pretensão de ser realmente integral e sem intervenções críticas, para melhor acesso popular - ou ‘‘vulgatas’’ (de uso comum), como define a editora Assírio & Alvim, detentora dos direitos de publicação.
No Brasil, os direitos sobre a obra de Pessoa foram adquiridos pela Companhia das Letras, que seguirá, com pelo menos dois lançamentos anuais, as reproduções da edição lusitana, preservando, inclusive, a ortografia do português de Portugal.
A obra do poeta português, que havia caído no domínio público em 85, voltou ao poder dos herdeiros em 93, depois que a Comunidade Econômica Européia redefiniu, para todos os países-membros, o período de 70 anos após a morte do autor para a liberação dos direitos autorais. Até então, qualquer editora estava livre para lançar seus livros, já que a antiga legislação portuguesa estabelecia em 50 anos após a morte o domínio público dos direitos autorais - Pessoa, nascido em 1888, morreu em Lisboa em 1935. ‘‘Não pretendemos minorar as outras, mas a verdade é que houve muitas edições malcuidadas, e achamos que Fernando Pessoa merece um tratamento especial’’, disse à reportagem, por telefone, Lúcia Pinho e Melo, da Assírio & Alvim.
Segundo ela, toda a nova edição das obras completas está sendo preparada por uma equipe de estudiosos do poeta com base nos manuscritos deixados por Pessoa em uma arca e preservados pela família. Os textos, que têm sua ortografia original atualizada, são acompanhados apenas de textos de apoio, que no Brasil se resumem a ‘‘orelhas’’ críticas, assinadas por estudiosos ‘‘pessoanos’’ como Hakira Osakabe e Leyla Perrone-Moisés.
A ordem de publicação, tanto aqui como em Portugal, não é cronológica. Lá, cinco volumes já foram publicados - além de ‘‘Mensagem’’ e ‘‘Ficções...’’, o ‘‘Livro do Desassossego’’, do semi-heterônimo Bernardo Soares, o romance ‘‘A Hora do Diabo’’, e ‘‘A Língua Portuguesa’’, ensaio inédito. ‘‘O que difere nossa edição das outras é a organização e o critério de agrupamento dos textos’’, diz Pinho e Melo. ‘‘Além disso, há muita coisa inédita, jamais publicada em livro.’’
Entre os inéditos, ela citou a prosa do heterônimo Álvaro de Campos e o conjunto de ficções de um semi-heterônimo desconhecido, o Barão de Teive. ‘‘É uma espécie de Bernardo Soares, a prosa é idêntica’’, diz a editora. Também serão publicados dois volumes de cartas e os textos da faceta menos conhecida de Pessoa, a bem-humorada - são escritos cômicos, de humor refinado e sutil.
Ainda sem data prevista para publicação, deve chegar por aqui mais tarde o livro infantil de Manuela Nogueira, sobrinha e detentora dos direitos autorais de Pessoa, com textos também inéditos que o poeta escreveu para ela quando pequena e escritos dele da fase de criança e adolescente, publicado em Portugal sob o título ‘‘O melhor do mundo são as crianças’’.

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