Inéditos de Kerouac a caminho
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sábado, 30 de novembro de 2013
Nelson Sato<br>Reportagem Local 
É possível montar uma estante razoável com títulos de literatura beat já publicados no Brasil. Há um bocado de livros da turma aguardando leitores nas prateleiras de livrarias e sebos, embora alguma obras estejam esgotadas desde suas primeiras edições no País, nos anos 80.
Quem é entusiasta do filão, tem motivos para comemorar. A editora L&PM anuncia quatro lançamentos para 2014, sendo que três deles são escritos inéditos de Jack Kerouac (1922-1969), autor do clássico "On The Road".
A quarta novidade para a próxima temporada é o ensaio "Os Rebeldes: Geração Beat e anarquismo místico", do paulistano Cláudio Willer, tradutor do recém-publicado "O livro de haicais de Jack Kerouac". O volume chega ao mercado em março e é uma espécie de prolongamento de "Geração Beat", livro de bolso que o autor lançou o há quatro anos.
"Avancei no exame da religiosidade beat e sua relação com o anarquismo místico termo usado pelos historiadores para referir-se a algumas rebeliões religiosas medievais. Examino Kerouac em detalhe, inclusive procurando mostrar seu valor literário", adianta Willer à Folha2.
A fornada de Keroauc começa a pular da gráfica em fevereiro com o romance póstumo "O Mar é Meu Irmão", publicado em 2011 nos EUA, com 70 anos de atraso.
Descrito pelo próprio autor como "uma porcaria de literatura", o manuscrito de 158 páginas narra a história de dois jovens marinheiros viajando de Boston para a Groenlândia.
Teria sido escrito durante os oito dias em que o escritor esteve a bordo do navio mercante SS Dorchester, em 1942. Uma curiosidade histórica: o navio foi bombardeado por um torpedo alemão e afundou, quatro meses depois de Kerouac deixar a embarcação após receber um telegrama enviado pelo treinador Lou Little solicitando seu retorno à Universidade de Columbia para participar do campeonato de futebol.
Willer, uma autoridade em literatura beat, qualifica a obra como "incipiente" ao revelar Kerouac "preparando-se para ser um narrador, mas antes de definir seu estilo, sua identidade literária". Para ele, o romance "é um relato tradicional, confrontando dois personagens, dois alteregos do próprio Kerouac que embarcam em um navio. Muito influenciado por William Saroyan e outros narradores dessa corrente", diz.
Em julho, a L&PM lança a novela "Pic", último narrativa em prosa de Kerouac e publicada pela primeira vez nos EUA em 1971. Willer explica que a obra "é canto de cisne", concluída em 1969, às vésperas da morte: "Um relato de aventuras por um garoto negro, na primeira pessoa, preservando o modo de expressar-se dos negros do Sul dos Estados Unidos. Estudiosos divergem sobre seu valor. Acho comovente", assinala.
O terceiro lançamento de Kerouac programado pela editora gaúcha é "Some of the Dharma". Trata-se, segundo Willer, de uma "extensa reunião de reflexões sobre budismo, enquanto ele se aprofundava nessa doutrina. Obra complexa". Sobre o tema, vale lembrar que o budismo entusiasmou a tal ponto o escritor em meados da década de 50 que ele tornou-se um fanático inconveniente para amigos e familiares.
Durante certo período, Kerouac foi praticante de meditação e tradutor de textos budistas. Estava convencido de que suas devoções o conduziriam por um verdadeiro caminho de sabedoria espiritual e salvação pessoal. Houve dias em que decorava trechos dos sutras para disciplinar sua mente. Ajoelhava-se por longas horas enquanto recitava preceitos. Nessa época, trocava correspondências com o poeta Allen Ginsberg, outro ícone da geração beat e a quem muitos atribuem a introdução do amigo ao universo das religiões orientais. A publicação de "Some of the Dharma" está agendada para novembro.


