Inédita nos palcos, a peça "Crimes e Crimes" chega às livrarias do Brasil
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quinta-feira, 04 de novembro de 1999
Por Beth Néspoli 
São Paulo, 05 (AE) - No início da década de 50, o ensaísta J. Guinsburg traduziu a peça "Crimes e Crimes" do dramaturgo sueco August Strindberg (1849-1912) a pedido do empresário Abe Klinger, que planejava dirigir uma montagem do texto. Klinger iniciou os ensaios com um elenco integrado por Ítalo Rossi e Moná Delacy, entre outros atores, mas, como é comum ocorrer com bons e ambiciosos projetos teatrais no País, o processo foi interrompido e, infelizmente, a encenação nunca se concretizou. Quase meio século depois, a peça "Crimes e Crimes", ainda inédita nos palcos brasileiros, chega às livrarias publicada pela Editora da Universidade de São Paulo (Edusp).
A tradução de Guinsburg para o texto de Strindberg foi escolhida para ser o segundo lançamento da série "Em Cena", coordenada por Plínio Martins Filho e iniciada com "Ivanov", de Anton Chekhov, traduzida diretamente do original russo por Arlete Cavalieri e Eduardo Tolentino de Araújo. Na edição de "Crimes e Crimes" (120 págs., R$ 17), já disponível nas livrarias, o leitor encontrará, além da peça, um prefácio e um curto, porém ótimo, estudo sobre as principais características da obra do autor, ambos assinados pelo tradutor. Do ponto de vista crítico, Guinsburg ressalta como um dos focos de interesse de "Crimes e Crimes", escrita em 1898, o fato de ser uma peça limítrofe entre duas etapas distintas na criação dramática de Strindberg.
A primeira etapa é marcada por peças realistas, como "O Pai" (1887) e "Senhorita Júlia" (1888), e a segunda pelas chamadas peças de sonho, como "A Dança da Morte" (1901) e "O Sonho" (1902), já no estilo simbolista ou pré-expressionista, a partir do agravamento da doença mental do autor, em l895. Sendo uma das primeiras peças dessa segunda fase, "Crimes e Crimes" apresenta também elementos da fase anterior, destacados por Guinsburg em sua análise crítica. No fim do volume, o tradutor acrescentou ainda uma relação das obras dramáticas e uma curta cronologia biográfica de Strindberg. Primazia ao diálogo - No prefácio, Guinsburg afirma ter refeito a versão anterior da peça, cujo objetivo era o palco. "Dei primazia a um diálogo mais literário, tendo em vista que tal era a forma que as falas apresentavam no original de que eu me servira e que Gassner - o crítico americano John Gassner (1903-1967) - considerava como uma tradução direta da melhor qualidade". O que resultou em diálogos de grande beleza poética sem detrimento da fluência ou da força dramática. Maurice, o protagonista de "Crimes e Crimes", é um dramaturgo principiante. Ele mantém uma relação amorosa com Jeanne, uma mulher de classe social inferior, com a qual tem uma filha.
A peça flagra-o na noite de estréia de um texto de sua autoria, uma noite triunfante, na qual é tomado pela certeza de que, daí em diante, adquirirá prestígio, dinheiro e sua vida dará uma guinada definitiva. Nessa mesma noite ele conhece Henriette, namorada do pintor e amigo Adolphe, mulher atraente e sofisticada, cujo temperamento é o oposto da humilde Jeanne. Após o espetáculo, embriagado pelo sucesso, ele ignora Jeanne, a filha, os velhos amigos e vai comemorar a sós com Henriette, depois de driblar Adolphe. No restaurante escolhido, a um só tempo felizes pelo futuro, porém presos ao passado, eles mantêm um diálogo quase delirante sobre o tema de expiação e culpa, crime e castigo. Misoginia - No calor da conversa, Maurice chega a desejar a morte da filha, o maior empecilho à plena felicidade. Com a efetiva morte da menina, no dia seguinte, ele passa a ser o principal suspeito e sua fantasia de futuro desmorona. Como bom dramaturgo, Strindberg põe seus personagens em situações-limite para investigar as profundezas da alma humana. Na obra estão presentes traços predominantes na obra do autor, entre eles, e talvez o mais forte, a misoginia. Strindberg parece estar certo de que a mulher nasceu para infernizar e destruir o homem.
"A misoginia em si não provocaria nenhum interesse literário e seria uma bem pobre característica do autor, se Strindberg não a tivesse utilizado para apurar o instrumento de análise, indo ao fundo dessa luta de cérebros que deu às suas peças clima tão intenso e vigoroso", escreveu o crítico teatral Sábato Magaldi num dos artigos compilados no volume "O Texto no Teatro" (Editora Perspectiva).


