Indústria fora de foco
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domingo, 11 de fevereiro de 2001
Ranulfo Pedreiro De Londrina 
Foi no berço que o músico Marcos Souza aprendeu o valor das convicções. Sobrinho de Betinho e Henfil e filho do compositor Francisco Mário pioneiro na produção de discos independentes no Brasil , Marcos Souza seguiu os passos do pai para driblar a montanha russa de interesses e pressões que povoam o mercado fonográfico e lançar seu primeiro CD.
Como Betinho e Henfil, Francisco Mário era hemofílico e morreu em 1988, após contrair Aids em transfusões de sangue. À frente de uma gravadora em que o interesse financeiro não pesa mais que o valor artístico a carioca Rob Digital , Marcos Souza conversou com a Folha2, por e-mail, para falar de indústria fonográfica, disco independente e internet, sem poupar críticas aos esquemas comerciais.
Quando e por que seu pai optou pela produção independente de LPs?
Papai era o caçula de uma família de oito irmãos. Betinho, o mais velho, foi autor da Ação da Cidadania Contra a Fome, Miséria e Pela Vida. Mais novo, Henrique Souza Filho virou o ícone do cartum, se tornou Henfil e participou do Pasquim. Francisco Mário, o mais novo, estava se formando em economia e dava aulas de violão em São Paulo quando nasci. O primeiro disco independente no Brasil gravado foi em 1976 pelo fagotista Noel Devos, em seguida veio o disco Feito em Casa do Antonio Adolfo. No Rio de Janeiro, Chico Mário como era chamado , pegou as dicas e foi para o estúdio gravar o disco Terra. Seu primeiro e elogiado disco foi lançado em 1979. Antonio Adolfo foi presidente e Francisco Mário vice da Apid (Associação de Produtores Independentes de Disco). Esta associação começou com 60 artistas, em pouco tempo já eram 300.
Como Francisco Mário conseguiu produzir discos independentes numa época em que gravar um álbum saía tão caro?
O primeiro disco ele bancou. No segundo, Revolta dos Palhaços, ele juntou 200 pessoas que compraram o disco antes de estar pronto. Esta idéia tornou possível o lançamento de meu primeiro CD, com o grupo Conversa de Cordas, em 1995. Chico Mário vendeu 4 mil cópias do disco Terra no México, e com o dinheiro produziu o disco Conversa de Cordas, Couros, Palhetas e Metais. Ele vendeu mais de 10 mil cópias no Brasil com distribuição caseira. Um disco naquela época era muito mais difícil de ser feito. Meu pai teve que vender um apartamento para bancar seu primeiro disco. Hoje dá para fazer um CD com R$ 10 mil. Com o grupo que tive não gastamos mais de R$ 5 mil.
E as transformações que o CD e a Internet incutiram no mercado fonográfico?
O CD permite que todos possam gravar seu trabalho. A Internet é uma maravilha para se comunicar e fazer entrevistas para jornais que têm uma preocupação cultural. Quando a gravadora Rob Digital fechou uma parceria de venda com a Agenda do Samba-Choro (www.samba-choro.com.br), em uma semana venderam quase uma centena de discos do Paulo Moura. o site Attambur (www.attambur.com) fala da música portuguesa e também vem atingindo o intercâmbio informativo musical. A internet nos proporciona chegar nas pessoas que gostam da música brasileira e da música que têm os elementos da música, não só ritmo, mas também harmonia, melodia e timbre! Em todo lugar tem uma rádio de música clássica, folclore, pop, rock, world music... Por que no Brasil não? A internet, que já têm rádios segmentadas, está no caminho certo. A MPB está provando que a música brasileira de qualidade é apreciada não só pelo mundo, mas pelo próprio país. Basta ter chance de ser ouvida.
A música não-comercial está ganhando terreno?
Ela nunca perdeu terreno, o choro teve seu ápice na Época de Ouro, mas continua firme e forte conquistando jovens e músicos. O samba está mais forte do que nunca, claro que ainda tem o pagode mal feito, sem estrutura musical, e principalmente sem cantor adequado. Também acho que algumas pessoas estão cansadas de consumir o que a mídia põe no ar. O samba fica, para sempre, o bom forró também. O choro está aí desde 1870. A minha teoria é: quem não vai gostar de um dos 432 ritmos catalogados do Brasil?
Como se caracteriza o mercado hoje? O que virá pela frente?
O mercado brasileiro ainda é bobo, não deu por si que podemos hoje ter acesso à música brasileira que o brasileiro não conhece, e ao mesmo tempo ouvirmos a boa música portuguesa, cabo verdiana, mundial. Acredito em valores como Simone Guimarães, Regina Spósito, Vander Lee, Marquinhos de Oswaldo Cruz, Lenine, Chico César... Vejo um fortalecimento da música brasileira, é a bola da vez no mundo... Vide Bebel Gilberto e Márcio Faraco (compositor brasileiro residente na França que já vendeu mais de 20 mil cópias por lá). A insistência de que música é só entretenimento e o pensamento no imediatismo financeiro está fazendo com que a grande indústria perca força.
A manipulação do mercado diminuiu? E o jabá, ainda existe?
Na imprensa escrita conseguimos espaço, a manipulação não é tão grande. Acho que o problema ainda está no rádio e, em alguns casos, na TV. O jabá existe, mas nunca o vi.
Programas como o Napster são vilões ou heróis?
Se fizerem tudo direito e pagarem os direitos autorais, são heróis. Gosto da idéia de que as pessoas tenham acesso a uma grande quantidade de músicas. Se não tiver uma grande quantidade, cai na mesmice...
Como a Rob Digital se insere neste contexto mercadológico?
A Rob Digital é uma pequena gravadora, com 35 títulos, já ganhou um Grammy latino com o CD do Paulo Moura, uma façanha. Tem sua própria distribuição, com representantes em quase todos os estados. Paga o trimestral em dia, aos artistas e autores. O respeito com o músico, o artista, a Rob tem. A Rob está ganhando espaço, consegue entrar em grande parte das lojas e livrarias e vende pelo site www.robdigital.com.br. A Lia de Itamaracá é um sucesso aonde vai! Os títulos da Rob não saem do catálogo nunca, não são CDs datados.
Quais são os seus planos à frente da gravadora?
Estamos lançando CD de um artista local de cada estado. Começamos com a Lia de Itamaracá (PE), Eliezer Setton (Maceió), cariocas nem se fala... Aproveito para dizer que estamos selecionando um artista do Paraná, quem se interessar, é só mandar um CD ou fita para a gravadora, (Rua 19 de Fevereiro nº 40 Botafogo Rio de Janeiro CEP: 22280-030). Estou empenhado na divulgação, troca de informações e parcerias com outras gravadoras, inclusive de países como EUA, Alemanha e França. Estamos acabando a produção do novo CD do Elton Medeiros. Mês que vem chegam dois novos CDs: do professor de violão Nicanor Teixeira e de Carlos Varela um trovador pop cubano e Silvio Rodrigues, com Assim Como os Peixes. Como músico, estou preparando uma turnê pela Europa e um novo CD. Dentro do meu projeto Rio Sesc Cultural, farei um evento no dia 23 de abril, que será o Dia Nacional do Choro, decretado pelo Presidente Fernando Henrique Cardoso. Não por acaso, dia do nascimento do Pixinguinha. Conclamo a todos que tocam e gostam de choro no Paraná que façam uma roda de choro neste dia.


