Indulgência de estilo derrota a substância
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quinta-feira, 05 de junho de 2008
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha2 
Marqueteiros em geral não são mesmo flor que se cheire - exceções muito honrosas, claro, como em toda atividade humana, crítica cinematográfica ''tout compris''. E quando filtrados pelos fluidos da mega-indústria de Hollywood assombrada pelo dólar em queda mais ou menos livre, então nem se fala. Foi só ''Sex and the City'' bater nos 50 milhões de dólares no fim de semana de estréia nos EUA para descomunal e artificial alarde tomar conta da mídia, que trombeteou aos quatro ventos o feito desta ambiciosa comedinha fashion romântica mal disfarçada de safadeza light.
O ''pobre'' Indiana Jones, com seus US$ 125 milhões no fim de semana de estréia, quase ganhou necrológio porque teria simplesmente sido atropelado pelo quarteto das amigas-cúmplices. No momento o placar no mercado americano acusa 223 milhões para Indiana em 13 dias de exibição contra 68 milhões para ''Sexo...'' em 5 dias. Outros detalhes, consultar www.boxofficemojo.com.
Para falar desta versão-cinema de um dos maiores fenômenos de audiência da televisão, não apenas nos Estados Unidos, e uma das estréias da temporada mais ansioliticamente aguardadas (veja a programação de cinema na página 2), é preciso levar em conta uma evidência: deixando em segundo plano a correção das atrizes envolvidas, todas obviamente muito à vontade em seus personagens originais - afinal foram seis temporadas, de 1998 a 2004 -, a verdadeira estrela do filme é o formidável vestuário concebido por Patrícia Field, a mesma designer que vestiu ''O Diabo Veste Prada''.
Em ''Sexo e a Cidade'', itens como vestidos, sapatos e acessórios ganham presença bem mais vistosa do que as interpretações, locações, sequências ou cenas. O que se conclui é que a história de Carrie Bradshaw (Sarah Jessica Parker), a colunista sempre deprimida, mas sempre irrepreensivelmente vestida, não poderia ser contada sem a participação decisiva desses elementos, aqui considerados essenciais. E que acabam por transformar o filme num exercício de auto-indulgência narcisista, numa espécie de ditadura do estilo, do invólucro que oprime (suprime, é mais condizente) a substância.
Para júbilo dos sectários fãs televisivos que certamente vão aderir a esta longa (muito, muito longa: 145 minutos cravados) aventura, aqueles que mais compraram do que alugaram as temporadas completas, o que eles procuram está aqui. Tudo segue igualzinho àquele sofisticado mundo de Carrie. A moça ainda mantém um guarda-roupa tão requintado quanto inexplicável. E conta com a cumplicidade das amigas de sempre: Miranda Hobbes (Cynthia Nixon), Charlotte York-Goldenblatt (Kristin Davis) e a vulcânica sem idade Samantha Jones (Kim Cattrall).
Com elas Carrie segue falando sobre tudo. Desde como convém aplicar botox até regras de etiqueta na cama - todo um verniz de superficialidade (e vale a redundância) aplicado com tal precisão que, no momento em que a trama dá voltas e busca romper a letargia do belo e do glamouroso para falar de assuntos como infidelidade, fim de relação, medo de compromisso ou gravidez de alto risco, este tipo de conversa parece chocante e deslocado do frívolo contexto que afinal é o imperativo do filme.
''Sex and the City - o Filme'' quer mesmo é nada com nada. Não oferece coisa alguma de novo e nem pretende oferecer. O que interessa é entreter, deslumbrar. Como numa passarela de alta moda. Quem esperou mais do mesmo vai ter. As ''meninas'' em retomada de ritmo (a direção, a propósito ou sem propósito, tanto faz, é de Michael Patrick King, veterano da série televisiva), a cidade de Nova York, a muito rasa ou quase inexistente relevância. É absolutamente um filme-efemeridade.


