Guarapuava - ''Uma data histórica na trajetória dos índios de todo o Brasil''. Essa foi a frase que marcou a oficialização da Associação Indígena de Estudantes Universitários do Paraná (Aiup). A entidade foi criada durante um encontro que reuniu 20 estudantes, caciques de 14 reservas indígenas, juristas e professores universitários em Guarapuava.
A reunião foi realizada há uma semana no Centro de Formação Indígena Juan Diego e contou com cerca de 60 participantes de todo o Estado. Eles discutiram os objetivos da entidade, os problemas encontrados pelos alunos e ainda apresentaram sugestões (como a criação de futuras comissões setoriais ligadas à cultura, educação, meio ambiente, etc). ''Estamos dando uma volta enorme para encontrar soluções aos problemas e fazer com que benefícios cheguem aos estudantes. A associação vai agilizar todo esse processo'', disse Neoli Kaly Rygue Olíbio, 20 anos, o mais jovem cacique do Paraná (coordena a Comunidade Rio das Cobras, em Palmas), tesoureiro da entidade e aluno da Universidade Estadual do Centro-Oeste (Unicentro) de Guarapuava.
Auxiliado pelo promotor da Vara de Infância e Juventude de Maringá, Robertson Fonseca de Azevedo, e pelo professor de Serviço Social da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Wagner Roberto Amaral, o grupo elaborou um estatuto e definiu a primeira diretoria. ''Decidimos colocar um aluno de cada universidade estadual (seis, ao todo) na direção. Assim, quando um problema for detectado, qualquer estudante índio poderá encaminhá-lo ao representante da sua cidade'', disse o presidente eleito da Aiup, Alvaci Jesus Sales Ribeiro, caingangue de 37 anos e também estudante de Administração da Unicentro.
Entre os objetivos da associação estão o acompanhamento dos alunos nas instituições e a criação de projetos que auxiliem a formação acadêmica (como grupos de estudo, aulas de reforço e propostas que integrem a aprendizagem urbana com a vida na aldeia). O grupo também pretende fechar convênios com fundações, ONGs e centros de pesquisa que possam receber estagiários indígenas, além de agilizar junto aos governos Estadual e Federal a distribuição de bolsas e recursos financeiros previstos em lei. ''Estou recebendo o apoio dos meus professores e espero que a associação melhore ainda mais as condições de aprendizagem dos índios. Tudo é muito novo pra gente, mas queremos o diploma'', afirmou Valéria Lourenço Jacinto, 26 anos e estudante de Medicina da UEL.
O antropólogo e professor da Universidade Estadual de Londrina (UEL) João Valentin Wawzyniak acompanhou o ''nascimento'' da associação, elogiou a iniciativa dos alunos - inédita no Brasil - e sugeriu que os estudantes desenvolvam projetos sociais direcionados às aldeias do Estado. ''É um momento histórico para as comunidades indígenas, mas estamos torcendo para que a associação saia rapidamente do papel e coloque as idéias em prática'', comentou Wawzyniak, que também integra a Comissão Permanente de Acompanhamento dos Estudantes Universitários da UEL.
A Aiup também foi elogiada pela técnica do Setor de Educação da Funai em Londrina, Célia Maria Simões, e recebeu apoio dos caciques mais experientes. ''Vocês estão abrindo um novo caminho para seus filhos e netos trilharem. Começamos com a luta pela terra e vocês devem continuar agora com a luta pela cidadania'', disse o cacique da Reserva de Marrecas (Guarapuava) e vice-presidente do Conselho Nacional Indígena, Pedro Seg-seg Cornélio, 59 anos.
A Aiup é composta pelos 28 estudantes das universidades estaduais, mas deve ampliar o número de associados junto às instituições particulares conveniadas com a Funai. Somente na Faculdade Integrada de Palmas (Facipal, região sul do Estado), existem 33 índios paranaenses, catarinenses e gaúchos que recebem bolsas integrais. Representantes da entidade já foram convidados a participar de um encontro sobre educação indígena no Rio Grande do Sul, previsto para o início de abril. A intenção é auxiliar na formação de novas associações em todo o País.

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