São Paulo, 17 (AE) - Sexta-feira à noite, 120 índios guaranis deixarão os dormitórios do Instituto Cajamar, no quilômetro 46,5 da Rodovia Anhanguera, em São Paulo, onde estão hospedados desde o início da semana, e rumarão para o Sesc Pompéia. A maior parte deles é criança e tem entre dez e 16 anos. Eles vêm de cinco aldeias de São Paulo e do Rio. A apresentação de "¥ande Reko Arandu" (Memória Viva Guarani) pelos índios no Sesc é talvez o maior esforço já empreendido no sentido de resgatar da tradição oral o legado cultural dos guaranis. Trabalho conjunto de quatro associações indígenas, do programa Comunidade Solidária, mais três prefeituras, quatro secretarias e 300 índios, o espetáculo reveste- se de dupla importância. A importância fundamental é evidente: apesar dos 500 anos de convivência, nunca os brasileiros visitaram a tradição dos cânticos guaranis. Não havia, até agora, registro sonoro dos cantos de reza, fertilidade, batismo, brincadeiras, histórias, acalantos. O segundo ponto a se destacar nessa apresentação é o resultado: o disco que os guaranis gravaram, com base em corais infantis, é de uma beleza extraordinária.
"O canto infantil é tradicional na cultura guarani", explica o coordenador do projeto, o historiador e sociólogo Antônio Maurício Fonseca de Oliveira, que também é interlocutor em SP do programa Comunidade Solidária. "O repertório é montado pelos próprios guaranis, com canções coletadas com os mais velhos da tribo", diz Oliveira. Boa Vista - As gravações foram feitas em quatro sessões, em diversas circunstâncias, na aldeia Jaexaá Porã (Boa Vista, em português), pela Unidade Móvel do estúdio Zabumba. Participaram índios das aldeias Sapucaí (Tape Nhemoexakã, de Angra dos Reis), da aldeia Morro da Saudade (Tenondé Porã, de Parelheiros), da aldeia Rio Silveira (Kunhã Arandu Mirim, de São Sebastião) e da aldeia Boa Vista.
"Quando a gente leva um branco na casa da reza parece que não dá para se concentrar", diz o índio Timóteo Verá Popyguá. "E, de repente, naquele dia da gravação, na casa de reza da aldeia Boa Vista, tinha câmera, tinha gravador, microfone para gravar, tinha foto tirando e, em nenhum momento, não se interferiu nem atrapalhou a parte do cântico, da concentração que a gente tem ali", afirma Popyguá, acentuando que as pessoas que estavam lá naquele dia eram "escolhidas".
Segundo o historiador Antônio Maurício Fonseca Oliveira, existem hoje no Brasil cerca de 7 mil índios guaranis - numa estimativa, eles podem ter sido quase um milhão no século 16. A pesquisa para o projeto "Memória Viva Guarani" procurou, segundo Oliveira, estimular o fortalecimento das lideranças culturais das tribos. Cerca de 300 índios participaram das sessões de gravação do CD. A apresentação de sexta à noite, no Sesc, está baseada na experiência que foi a gravação do disco, mantendo até algumas premissas básicas - a apresentação começa fora do palco.
Apesar de ser um povo nômade, é impressionante notar como a nação guarani - que já ocupou o Brasil de norte a sul, chegando à Argentina, ao Uruguai e ao Paraguai - mantém sua tradição cultural. "Você chega a aldeias localizadas na Grande São Paulo e encontra criança falando o guarani como língua principal e mal o português, assim como há práticas religiosas que têm mais de mil anos de existência", diz Oliveira.
"Na nossa cultura a gente não escreve, a gente somente fala", diz o índio Popyguá. Por meio do CD e da apresentação, que será gravada, os índios esperam facilitar a transmissão dos seus ritos seculares. A poética dos guaranis está fundada na palavra e no canto - que é uma expressão da própria divindade. Tanto é assim que o violão primitivo dos guaranis, eventualmente feito em casca de tatu, tem apenas cinco cordas, cada uma delas representando um deus: Tupã, Kuaray, Karaí, Jakairá e Tupã Mirim.
Além da música, o Sesc Pompéia terá exposições de arte guarani, fotografias, desenhos infantis e um vídeo feito por um índio, mostrando a gravação do CD.

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