Índio quer turismo
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domingo, 30 de março de 1997
Agência Estado 
Arquivo FolhaCrianças guaranis brincam na reserva. Além dos guaranis, os xavantes, kaiapós, bakairis, e outras do Alto Rio Negro poderão receber visitantes.Um índio descerá de uma estrela colorida e brilhante e vai levá-lo, pela mão, para conhecer suas terras, seus costumes e rituais. Poesia? Não só. Trata-se de um programa-piloto de ecoturismo em áreas indígenas que prevê, em três meses, as primeiras visitas experimentais às aldeias monitoradas por indígenas. Este é o primeiro resultado de um workshop, realizado no início de março, em Bela Vista de Goiás com indigenistas, antropólogos, indígenas e a equipe da Eco Brasil (Associação Brasileira de Ecoturismo, uma ONG sem fins lucrativos) para debater o empobrecimento crescente das comunidades indígenas, afirma o presidente da Eco Brasil, Roberto Mourão.
Para quem não sabe, os índios têm o maior interesse em abrir suas terras para o turismo. Mas para que essa visitação não ocorra de maneira desorganizada ou predatória, estão sendo feitos estudos prévios com o apoio do Ministério do Meio Ambiente, Secretaria da Amazônia Legal e da Funai (Fundação Nacional do Índio).
O problema central identificado foi o impacto negativo no contato entre indígenas e não-indígenas, relata Mourão. E esses impactos levaram a uma aceleração do processo de perda da cultura das comunidades indígenas. Para evitar problemas como esse, Mourão defende um ecoturismo informado, organizado e bem guiado. Nesse contexto de empobrecimento por razões diversas , a proposta de ecoturismo surge como uma alternativa econômica às comunidades.
Para poucos Mas, aviso aos caciques de plantão: terras indígenas não são aldeias. São áreas ocupadas por comunidades ou nações indígenas. A área dos kaiapós, com população de cerca de 5 mil índios, por exemplo, é duas vezes maior que a Costa Rica ou duas vezes e meia o tamanho da Bélgica.
Durante as visitas, os indígenas serão, na maioria das vezes, guias e condutores dos passeios. No roteiro, uma das paradas previstas pela Eco Brasil será numa farmácia indígena, local onde são cultivadas ervas medicinais, plantadas sob a orientação de um pajé, dono de um conhecimento profundo sobre remédios naturais. Também está previsto um passeio às hortas da comunidade sob o comando das índias.
Quanto à permanência dos visitantes nas áreas indígenas, Mourão antecipa que, em algumas aldeias, poderão ocorrer contatos até por dois dias. Um dia para o pouso do avião, já que na maioria dessas áreas o acesso só é possível por táxi aéreo, e outro dia para visitar os projetos das comunidades indígenas, caso da aldeia A-Ukre, do cacique Paiakan, onde a indústria de cosméticos naturais Body Shop mantém um projeto de extração de óleo de castanha para condicionador de cabelo.
Não pense, cara pálida, que esses passeios vão ser baratos. Esse tipo de ecoturismo é para poucos, pagando muito, brinca Mourão: Se você quiser conhecer o paraíso, vai ter de meter a mão no bolso. Um trekking de 15 dias na área kaiapó, com táxi aéreo, poderá custar US$ 4 mil.
Na rede Entre as comunidades que poderão receber visitantes estão a dos xavantes, dos kaiapós, bakairis, guaranis e outras do Alto Rio Negro. No início, serão visitas técnicas. Só depois de analisados os riscos e a viabilidade operacional é que serão organizados os grupos experimentais com estudantes e ecoturistas. A primeira visita experimental deve ocorrer dentro de três meses.
Quanto à hospedagem dos grupos, a Eco Brasil planeja acomodá-los em acampamentos e alojamentos construídos fora das aldeias, com infra-estrutura adequada. Lá, o turista vai dormir em rede, usar banheiro simples e comer peixe pescado pelos índios. E também vai passear de canoa e visitar alguns lugares históricos. Uma das opções de passeio é São Félix do Xingu, que prevê dois dias de navegação rio abaixo, com paradas para pescaria.
As alternativas para o ecoturismo em áreas indígenas brasileiras são várias. Índios americanos, mexicanos e peruanos já conhecem bem esse tipo de atividade. E pelo visto, muito em breve será possível fazer um bom programa de índio no Brasil.
Serviço
Eco Brasil: tel: (021) 512-418


