Indígenas atrás das câmeras
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terça-feira, 28 de junho de 2016
Marcos Roman<br>Reportagem Local 
O cotidiano de uma aldeia guarda peculiaridades, mistérios e rituais milenares que são vivenciados apenas por seus membros. Alguns momentos de intimidade dos Kaingangs da Terra Indígena Apucaraninha (que fica nos limites da cidade de Tamarana e distrito de Lerroville, na zona rural de Londrina) foram filmados durante dois anos por oito integrantes da própria tribo. As cenas fazem parte do documentário ?g ?n (Nossa Casa), que estreia hoje, às 14h30, dentro da programação do "Seminário sobre culturas indígenas e patrimônios museológicos", promovido pelo Museu Histórico de Londrina.
Idealizador do projeto e editor do documentário, o historiador e cineasta londrinense Luis Henrique Mioto conta que a ideia de fazer produzir o filme nasceu há três anos. "Fomos convidados por alguns indígenas a nos aproximar da cultura de seu povo. Com a convivência, ficou claro que o registro do cotidiano da aldeia seria possível apenas se fosse feito por integrantes da própria aldeia. Formamos então um grupo de oito indígenas que durante dois participaram de um curso de capacitação e aprenderam todas as técnicas necessárias para gravar as cenas", esclarece.
Mioto enfatiza que a definição do que seria registrado foi estabelecida durante muitas conversas com os indígenas. "Foi um processo longo. Primeiro tivemos que ganhar a confiança dos moradores mais antigos, pois muitos pesquisadores já haviam passado pela aldeia explorando o modo de vida deles sem deixar nada em troca. Explicamos que nosso objetivo era valorizar a cultura indígena para deixar registrado elementos importantes de sua cultura. Definimos com eles quais cenas seriam registradas e aos poucos íamos mostrando as filmagens. Depois, até os mais velhos começaram a se mostrar receptivos", relata.
O roteiro do documentário que tem duração de 70 minutos foi dividido em três partes. "São cenas que mostram as crianças, os jovens e os adultos. A infância indígena é retratada pela liberdade de crianças maravilhadas em cenas de encantamento, magia e integração com a natureza de uma forma que não se vê em outras culturas. As filmagens mostram a conversa entre dois jovens que falam do amor que sentem por suas esposas e narram esse sentimento de uma forma muito inocente e nada perversiva. Traz também depoimentos de gestantes falando sobre um ritual milenar com uma planta que ajuda a promover um parto mais rápido e sem dor. E cânticos ancestrais entoados por uma das moradoras mais antigas da aldeia", detalha.
O cineasta destaca ainda várias questões políticas envolvendo os indígenas que são levantadas no filme. "Ainda existe muito preconceito envolvendo os índios. Prova disso é um estudo que revela que além do português outras 200 línguas são faladas no Brasil. Mas ninguém se interessa por isso. Muito questionam os hábitos do índios mais novos que utilizam motocicletas e telefones celulares. É preciso entender que todo tipo de cultura e que nenhuma delas é estática. Todas estão em processo de transformação", argumenta.
O documentário '?g ?n' (Nossa Casa) é uma realização do Centro de Memória e Cultura Kaingang em parceria com o Cineclube Ahoramágica, A cor da terra produções, Programa Vehn Kar (programa co-gerido entre indígenas kaingangs e COPEL), Associação dos Moradores da Terra Indígena Apucaraninha e Programa Pontos de Memória (IBRAM / MinC). Além dos indígenas que assumiram o posto de cineastas e de Mioto, a equipe de produção do documentário contou ainda com outros três pesquisadores, o etnomusicologista Rafael Rosa, o antropólogo Eduardo Tardeli e a fotógrafa Jaqueline Vieira, que assinam a direção e coordenação do projeto. "Esse mistura de equipe indígena e não-indígena formam o corpo de coordenadores do 'Centro de Memória e Cultura Kaingang'. Trata-se de um espaço criado no final do ano de 2015 e tem sede dentro da Terra Indígena Apucaraninha, que conta com cerca de 1,2 mil habitantes. Esse filme é a primeira obra acabada do Centro que se abre ao público. Nosso próximo passo é criar um museu indígena neste local. Já estamos trabalhando para isso", ressalta Mioto.
Serviço:
Exibição do Documentário '?g ?n' (Nossa Casa)
Quando Hoje e amanhã, às 14h30; sexta, sábado e domingo, às 19h30
Onde Museu Histórico de Londrina (R. Benjamin Constant, 900)
Quanto Entrada Gratuita


