Indicado ao Prêmio Multicultural, Maurice Capovilla sempre foi um fomentador cultural
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segunda-feira, 08 de março de 1999
Por Luiz Carlos Merten 
São Paulo, 09 (AE) - Ele sempre foi um fomentador cultural. Nos anos 60 e 70, quando fazia, em São Paulo, filmes como "Bebel, a Garota Propaganda" e "O Profeta da Fome", ou no começo dos 80, quando realizou na TV Bandeirantes a série "Brasil Especial", o dublê de cineasta e professor da Escola de Comunicações e Artes, Maurice Capovilla, falava sempre sobre a necessidade de descentralizar a produção e incentivar o surgimento de novos talentos. Capovilla não defendia o mercado apenas para seus alunos da ECA-USP. Também dizia que era preciso incentivar as produções regionais de cinema e TV por este Brasil afora.
Capovilla chega a 1999 fiel ao que sempre defendeu. Ele está indicado para o Prêmio Multicultural Estadão, na categoria de fomentador cultural, por sua atividade no Pólo de Cinema do Ceará. Capovilla nega que represente o pólo. "O projeto cultural do Ceará foi desenvolvido pelo ex-secretário de Cultura Paulo Linhares", ressalta. "É um projeto que se insere no conceito geopolítico de desenvolver no País indústrias culturais regionais fortes". Mas Capovilla assume a sua parte, como diretor do Instituto Dragão do Mar de Arte e Indústria Audiovisual do Ceará, uma escola múltipla de arte, única no País.
Para levar a cabo seu projeto, o governo do Ceará investiu em mecanismos básicos. Capovilla explica que o Pólo de Cinema do Estado é um conjunto de medidas: uma lei de incentivo à cultura (Lei Jereissati), de 1995, que permite às empresas cearenses a dedução fiscal de até 2% do ICMS devido ao Estado para aplicar em benefício de projetos culturais (em dois anos foram aprovados R$ 12 milhões nesses projetos); e a criação, em abril de 95, do Bureau de Cinema e Vídeo, vinculado à Secretaria de Cultura do Estado, com a função de articular parcerias com os organismos públicos e empresas privadas, para tornar viável as condições necessárias de apoio às produções audiovisuais do Ceará (em 1997, foi criado o Bureau de Teatro, com a mesma finalidade no âmbito teatral).
As medidas não pararam por aí: o governo do Ceará também estimulou a instalação de infra-estrutura técnica audiovisual com apoio e financiamento a laboratório de imagem e som, estúdios de pós-produção, locadoras de iluminação e maquinaria. Construiu o Centro Cultural Dragão do Mar, com 25 mil metros de área edificada, aberto às manifestações culturais. E, por fim, em julho de 1996, fundou o Instituto Dragão do Mar de Arte e Indústria Audiovisual do Ceará, que abriga três centros: um de dramaturgia, outro de design e um terceiro de estudos básicos, que desenvolve cursos de artesanato, artes plásticas, artes cênicas, cinema e vídeo e gestão cultural.
Com recursos do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT), do Ministério do Trabalho, o instituto exibe os seguintes números: de julho de 1996 a novembro de 1998 foram oferecidas 24.407 vagas, realizados 449 cursos e certificadas 875 turmas de 25 alunos em média, cada uma.
Num texto do próprio punho, Capovilla afirma que o Dragão do Mar, homenagem ao herói libertário da escravidão, é uma experiência histórica cearense, no momento da passagem do século, em que se pode realizar a tese de uma escola do Primeiro e Terceiro Mundo reunida numa só, a partir da concepção de que é possível oferecer a qualquer indivíduo, não importa sua origem, classe social ou escolaridade, os instrumentos técnicos, estéticos e teóricos adequados para que sua expressão o qualifique como cidadão. Essa cidadania com a qual, como fomentador cultural, ele nunca deixou de sonhar.


