O herói Indy Jones e seus criadores, Steven Spielberg e George Lucas, devem a mim e a cerca de dois mil jornalistas, desculpas pelo desconforto de horas na fila ao sol, que afinal voltou forte, ontem, à região da Riviera Francesa. Sem contar os empurrões, cotoveladas e pés esmagados pelo diligente profissionalismo dos próprios colegas e pelo excesso de zelo do pessoal da
segurança.
  ‘‘Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal’’ teve ontem aqui, no 61º Festival de Cannes, sua estréia mundial. Valeu a expectativa? A quarta aventura do herói arqueólogo é tão eletrizante e simpática quanto os volumes primeiro e terceiro da saga? Bem, haverá controvérsias. É claro que não entre intransigentes admiradores do personagem, que fecham os olhos a tudo para incensar incondicionalmente este ícone das matinês aventureiras.
  Guardado sob todas as chaves, o grande segredo do filme afinal revelado é: ele não tem segredos. Quer dizer, há alguns, sim, todos familiares, domésticos, e que até acrescentam humor e charme à narrativa. Mas decididamente Spielberg não quis correr riscos maiores e encomendou a seu roteirista David Koepp (parceiro dos últimos filmes do diretor) uma história que ficasse bastante parecida com aquela primeira, de 1981, a dos ‘‘Caçadores da Arca Perdida’’. E ficou, de fato, tudo embalado pela mesma trilha de John Williams, agora preguiçosamente pouco criativo.
  Em lugar dos nazistas, os vilões da vez são os russos, supervalorizados porque no argumento corre o ano de 1957, e a paranóia anti-soviética nos EUA de então era epidêmica. A arca bíblica da Aliança, que na estréia da série ganhou seus toques sobrenaturais, foi agora substituída por um crânio magnético de cristal proveniente do reino perdido de Akator, uma civilização encontrada há séculos por conquistadores espanhóis no Peru – na verdade a mitológica Cidade de Ouro, à qual o filme acrescenta um molho especialmente, digamos, extra-terrestre (Spielberg precisa fazer com urgência a segunda aventura de E.T’’, e aí os ânimos estarão serenados de vez).
  O andamento rítmico também é o mesmo. Para cada sessão de conversa sobre a trama corresponde um intermezzo de ação desenfreada – ou seria o contrário?. A ação tem sempre, o mesmo frenesi, o mesmo timing de ‘‘Caçadores’’. Até mesmo os mesmos cenários e as mesmas situações decalcadas. Ou minha memória me trai? Não se trata de má vontade, mas de pura constatação. Os perigos e armadilhas letais nas ruínas peruanas, a perseguição nos jipes e caminhões de guerra dos inimigos
russos.
  O que parece consideravelmente incrementada é a inverossimilhança. Em 1981, o que se via na tela era incrível, e não havia ainda tantos subterfúgios tecnológicos, tanta digitalização, tanto ilusionismo por conta dos efeitos gerados por computador. Assim, a aventura sobrevivia muito melhor, com ares saudavelmente juvenis. Já aqui, em ‘‘O Reino da Caveira de Cristal’’, o filme parece particularmente infantilizado, perdeu um tanto em espontaneidade para dar lugar ao reino da informática que tudo pode, deixando pouco espaço à imaginação.
  Harrison Ford retoma Indiana sem acrescentar nada, o que é muito bom. Repete o personagem com energia, sem diletantismos de terceira idade e com o mesmo bom humor. Karen Allen também ressuscita aquela corajosa e engraçada Marion de ‘‘Caçadores’’. Muito divertida a espiã-cientista-chanel russa Irina Spalko criada por Cate Blanchett. E o jovem Shia LaBeouf até leva jeito para uma nova aventura, se houver, e se Harrison Ford resolver passar o bastão, ou o chapéu. É a surpresa final do filme. Que recomendo, mas sem aquele entusiasmo do primeiro título, há 27 anos.
* O jornalista viajou a convite da organização do Festival de Cannes

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