À uma da tarde de hoje, em ponto, o legendário personagem enfrenta desafio muito mais terrível do que qualquer dos perigos já encontrados na tela: o público de Cannes. Não aquele das ruas, muito amigo mas que somente terá acesso ao filme daqui a alguns dias, como de resto em todo o mercado internacional. Falo daquele público sempre cínico formado por críticos e executivos, aquela platéia que arrasou ''O Código Da Vinci'' quando o filme estreou aqui há três anos. Não só o filme, mas a milionária festa promovida pela Sony Pictures também, considerada o supra-sumo do mau gosto e do desperdício.
Para não correr o risco de sofrer bombardeio semelhante contra aquele que é o mais antecipado e previsível êxito comercial da temporada 2008 -embora a princípio e em tese não haja termo plausível de comparação -, a Paramount, o produtor George Lucas e o diretor Steven Spielberg tomaram algumas providências para evitar aquilo que estão chamando de ''a síndrome Da Vinci''.
Para começar: não haverá uma grande festa. Foi organizada uma ''pequena'' recepção para 250 pessoas, uma ''filmmakers party''. E sem convidados da imprensa, assim mesmo, com ''s''. Está confirmada a habitual entrevista coletiva após esta exibição de uma tarde - com uma esperada ''carnificina'' por conta do acesso de 4 mil credenciados a uma anacrônica sala onde cabem, no máximo, asfixiadas, 200 pessoas.
A única entrevista para as tevês e imprensa escrita, uma muito mais restrita chamada ''junket'', já foi realizada ontem e não amanhã, como é tradição. E o acesso a Spielberg, fora da coletiva, é simplesmente impensável. A opinião de experts em estratégia de marketing, pelo menos em teoria, é que todos devem ganhar. Cannes hospeda um mega-evento globalizado e o filme se beneficia da maior caixa de ressonância mundial que qualquer produto comercial jamais sonhou.
Há alguns fatos a considerar. Por pior que possa ser ''Indiana Jones'' - e escrevo antes de ter visto o filme -, será sempre melhor do que ''Da Vinci''. Não me parece viável que opiniões negativas partindo daqui, mesmo levando em conta que hoje a crítica ganhou muito mais velocidade via blogs, possam arrefecer os ânimos das massas de espectadores, a esta altura do calendário já de olho na contagem regressiva e um pé nas filas das bilheterias. O apelo iconográfico de Indiana Jones é forte o suficiente para esfriar qualquer Cannes-fobia dos realizadores.
Outra coisa: mesmo com reveses como ''Da Vinci'', a abertura mais ou menos recente dos grandes festivais internacionais para amostragem de blockbusters made in USA esfriou muito a sanha anti-hollywoodiana do pensamento cinéfilo europeu. Na pior das hipóteses, tolera-se com indiferença, na seleção oficial, os poucos produtos comerciais exibidos aqui como política de boa vizinhança entre os grandes estúdios e os organizadores de mercados de produções cinematográficas tão financeiramente significativos quanto o Marché du Film aqui de Cannes.

* O jornalista viajou a convite da organização do Festival de Cannes

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