O encanto persiste, todavia, e não há intempérie que consiga transformar a eterna paisagem da laguna veneziana. Mas chuva é sempre um transtorno para qualquer evento, e a movimentação festivaleira naturalmente se retrai, com evidente desgaste para todos. Há dois dias a meteorologia amarrou a carranca, dispersou a tietagem e alterou o humor de quem vinha trabalhando duro, mas com a atenuante do radioso sol deste sereno fim de verão. E foi sob uma renitente, irritante garoa que começou ontem a mostra competitiva, principal seção do 57º Festival de Veneza.
Embora pouco visto no Ocidente, o cinema indiano é o que mais produz filmes no mundo. E mais: produz generosamente apenas para um amplo consumo interno. Na quase totalidade, são musicais, comédias de costumes - as sitcome dramas lacrimogênios a partir de realidades muito localizadas - um cinema feito industrialmente de especificidades culturais, o que explica as milhares de salas, sempre lotadas, espalhadas por todo o país. Os centros de produção estão localizados em Bombaim e Madras, e o primeiro atende pelo nome de Bollywood. Por razões óbvias, já que o modelo e similar americano é o único outro produtor mundial a lançar títulos em proporção aproximada - e a Índia está em vantagem -, ocupando plenamente seu mercado doméstico. Só não há como falar em exportação, diante da agressividade planetária dos Estados Unidos.
Um porcentagem mínima de filmes da Índia tem trânsito em festivais internacionais. São justamente aqueles que ambicionam um status de arte universal, de identificação além-fronteiras. ‘‘Uttara’’, apresentado na incomoda condição de abre-alas da seleção competitiva, é dos poucos exemplares a obter passaporte para se submeter ao crivo da mídia internacional. Escrito e dirigido pelo dublê de cineasta e poeta Buddhadeb Dasgupta, o filme é de fato uma espécie de poema com fragmentos de uma história ambientada nos confins rurais de Bengala.
Dois guardas de ferrovia, amigos inseparáveis e que se exercitam diariamente numa modalidade de luta. Uma bela mulher, Uttara, que se casa com um deles e rompe a harmonia entre os dois homens. Um padre que acolhe e alimenta necessitados. Um garoto órfão adotado pelo padre. Um grupo de anões, trabalhadores das redondezas. Três homens maus, que circulam num jipe pelas estradas da região. Uma trupe de dançarinos em máscaras tradicionais. E uma bela e remota paisagem, componente fundamental para circunscrever dramática e poeticamente estes personagens. O ritmo na narrativa está próximo da cadência iraniana, contemplativa, circunferente. O bengalês Dasgupta, diretor de dez longas e autor de outros tantos livros, entre novelas, poemas e ensaios, descreve um mundo remoto e distante de globalizações e tecnologias.
Nem tudo o que se ambiciona dizer, no entanto, resulta muito claro para o espectador. A liberdade poética muitas vezes supera a clareza da narrativa, vale dizer, suspeita-se de uma intenção ou uma sugestão que afinal não se materializam em imagens. A subjetividade é aqui uma ditadora, e boa parte das idéias sobre intolerância religiosa, ideais de amizade, beleza e solidariedade
esbarram em imagens de força duvidosa e num elenco com alguma predisposição ao overacting. A rigor, ‘‘Uttara’’ deve ser um filme melhor compreendido e aceito pelas platéias de origem.
Boa, mas não extraordinária, a primeira performance dos donos da casa.
‘‘I Centi Passi’’( Os Cem Passos) é nova incursão ao terreno político-ideológico-criminal-afetivo do diretor Marco Tullio Giordana. Especialista em casos reais e polêmicos, foi ele quem em 95 ajudou a reabrir o caso do assassinato do cineasta, filósofo e poeta Pier Paolo Pasolini com o semidocumentário ‘‘Pasolini, um Delito Italiano’’, premiado em Veneza em a Medalha de Ouro do Senado. Giordana, um comunista naif, puro de coração, reconta agora outra história forte e verídica.
O personagem central é Giuseppe ‘‘Peppino’’ Impastato, jovem siciliano habitante de Cinisi, provincia de Palermo, que muito cedo - idos do
utópico 68 - deu uma guinada radicalmente à esquerda em sua vida. Filho de família com ramificações mafiosas, ele decide romper com o pai e afrontar o cappo do local, Gaetano Badalamenti, sedimentando uma militância comunista no ‘‘paese’’, desafiando e combatendo a Máfia através de um jornal e de uma rádio comunitária. O final da cruzada ideológica e quixotesca, óbvio, é trágico. Em 78, aos 30 anos, em campanha independente para a câmara municipal de Cinisi pelo Partido Democrata Proletário, Peppino Impastato é amarrado aos trilhos da ferrovia com oito quilos de dinamite e pulverizado. Mesmo assim é eleito.
Giordana é de um empenho e um envolvimento comoventes. Como no filme anterior, ele se engajou no projeto com bravura. O resultado é ideológica e afetivamente empenhado. ‘‘Os Cem Passos’’ - o título se refere à distância que separa as casas de Peppino e de ‘‘Tano’’ Badalamenti’’, na mesma rua - é um filme sobre acertos de contas diversos. É drama familiar denso que se estende no permanente conflito entre pai e filho, que se amam e se repudiam pelo sangue, pelas convicções, pelas contradições. É um manifesto de sobrevida comunista depois da falência das cripto-ideologias, uma espécie de credo redivivo. O elenco é soberbo, com destaque para a facção siciliana. Os italianos gostaram muito, a imprensa estrangeira pouco menos. Mas a entrada foi honrosa e convenceu, sem dúvida.

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