Indefinições anulam 'Mr. Deeds'
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 17 de outubro de 2002
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 2 
Era uma vez uma história contada com muito charme, recheada de diálogos saborosos. A história de Longfellow Deeds, simpático e prestativo tocador de tuba na pequena cidade de Mandrake Falls, em Vermont. De repente, Deeds herda imensa fortuna de um tio desconhecido, alguma coisa em torno de US$ 20 milhões. Para usufruir do legado, ele deve se render a Nova York e às hienas das altas finanças e da imprensa, que torcem por sua ruína, além de ambiciosos parentes-serpentes. Uma bela repórter é enviada à cidadezinha para fazer o jogo da sedução e contar no jornal como passa as tardes com o solteirão mais rico das redondezas. Em geral as pessoas fazem pouco caso dele, mas Deeds não é assim tão simplório como pensam alguns ou amalucado como querem outros: no final das contas ele conquista o reconhecimento geral e ainda fica com a garota e o dinheiro.
O argumento, levado ao cinema em 1936, sob o título de ''O Galante Mr. Deeds'', era dirigido por Frank Capra, aquele que melhor encarnou o espírito da comédia americana ligeira. Longfellow Deeds tinha as feições amáveis de Gary Cooper, e a jornalista ladina, Babe Bennett, era encarnada pela elegância loura da bela e desenvolta Jean Arthur. Sexagenário, o filme, que desafia o tempo e que deveria circular mais amplamente além dos limites de um único canal de tevê por assinatura, parece bem mais atual e muito mais inteiro do que ''A Herança de Mr. Deeds'', refilmagem que entra hoje em circuito nacional (veja a programação de cinema na página 2 ).
Diante deste remake assinado por Steven Brill a vingança maior é que ele jamais ganhará o Oscar de direção que Capra levou em 36 pode-se apenas e de novo recomendar o original, infelizmente não disponível em vídeo na cidade. A fórmula 2002 não consegue em nenhum momento captar o espírito leve e esperto da fonte, aquele tom de ligeireza da autêntica comédia romântica. Mesmo torcendo pelos visíveis, mas pouco inteligentes esforços para modernizar o produto, a conclusão mais transparente é de que falta neste ''Mr. Deeds'', em todos os níveis e todos os sentidos, o poder de convencimento. Tudo bem que os tempos são bem outros, mas não era preciso exagerar tanto na dose a partir da estratosférica inflação, que atualizou a herança de US$ 20 milhões para US$ 40 bilhões.
Nesta versão, Longfellow Deeds desaprendeu a argumentar com sutilezas para fazer prevalecer seu ponto de vista; ele agora fala pouco e se altera com muita facilidade, quase chegando às vias de fato. Lendo o filme da primeira à ultima linha, percebe-se com imensa tristeza como Hollywood empobreceu seus textos, como os diálogos caíram na vala comum da boçalidade, impessoais, vulgares, previsíveis, na melhor das hipóteses banais. Há ainda problemas sérios de ritmo, cenas curtas em demasia, atores mal dirigidos, falta mesmo de rigor a toda uma equipe, do roteirista ao iluminador, passando, é claro, pelo diretor Brill.
Administrando este equívoco (além de ator, também produtor) está o comediante Adam Sandler, que tem um fraco por personagens que inspiram simpatia. O afortunado vendedor de pizza de New Hampshire que ele encarna em ''Mr. Deeds'' não é exceção: está sempre procurando encantar as pessoas, querendo fazer rir. Mas para a platéia não é fácil. Para o elenco principal, o tom de interpretação pretendido foi o cool, aliás especialidade de Samler. Mas neste sentido o único que se sai bem é John Turturro, como o misterioso mordomo espanhol. Pobre Wynona Rider, involuntariamente provocando risos (o filme foi realizado antes que ela fosse processada por furtar roupas numa loja de Beverly Hills) quando seu personagem, a repórter Babe, explica que nunca tem dinheiro porque coleciona sapatos...


