Incursão no mundo das mulheres
Paulo Polzonoff Jr.
De Curitiba
Especial para a Folha 2
Mrs. Dalloway, a obra-prima de Virgínia Woolf, é o ponto de partida para As Horas, novo livro de Michael Cunningham, que chega às livrarias pela Companhia das Letras. O livro ganhou os dois mais importante prêmios literários dos EUA, o Pulitzer e o PEN/Faulkner. Cunningham, que com seus dois livros anteriores, Uma Casa no Fim do Mundo e Laços de Sangue, já era considerado um dos mais notáveis novos talentos da literatura mundial, confirma, com As Horas, a posição de destaque como retratista de uma sociedade marcada pela falta de valores absolutos.
O livro conta a história de três mulheres em três momentos diferentes da História. Virgínia Woolf é ela mesma, à beira do suicídio, na Londres da Primeira Guerra Mundial. Clarissa é uma editora lésbica na Nova York atual, que está dando uma festa para seu amigo Richard, aidético terminal e poeta de renome. Laura Brown é uma dona de casa dos dourados anos 50, encarcerada numa vida que parece ter sido pintada por Edward Hopper. O que estas três mulheres, de épocas tão díspares, têm em comum?
A palavra-chave é realização. Virgínia Woolf era uma escritora que, apesar do sucesso, não legava a si própria a condição de escritora maior. Clarissa, que tem o mesmo nome da protagonista do livro de Woolf, é uma mulher moderna, culta, com um estável casamento de dezoito anos com outra mulher e que de repente se depara com um presente que poderia ter sido outro, inclusive em questões sexuais, se aquele beijo, aquele, tivesse vingado. E Laura Brown é a dona de casa atormentada pela descoberta de si mesma, temerosa e resignada.
As Horas não traz bandeiras gays, como se poderia esperar de um escritor que tem seus livros anteriores dedicados a amigos que morreram na grande epidemia de aids dos anos 80. Tampouco traz narrativas atribuladas de vidas promíscuas e drogadas, tão comuns neste tipo de livro. Cunningham é elegante e lúcido, jamais dogmático. Um raro exemplo de escritor que não faz de sua condição de homossexual uma catapulta para o sucesso nem um substitutivo para o talento.





