Público e crítica do Festival de Cannes 2000 receberam com a temperatura de um iceberg o filme ‘‘Estorvo’’, de Ruy Guerra. Com o lançamento em vídeo, o filme multicultural pode ser revisto com outros olhos. A adaptação para o cinema do hermético livro do escritor sazonal Chico Buarque foi equivocada. O protagonista ‘‘Eu’’ (Jorge Perugorría, de ‘‘Morango e Chocolate’’ e ‘‘Navalha na Carne’’) narra seus seis últimos dias de vida. Ele foge de alguém que ameaça sua existência. Não conhece o rosto e nem o motivo da ameaça. Esse é o grande vácuo do filme. É impossível compactuar com o perigo enfrentado pelo protagonista e criar um vínculo com a história. A adaptação de Guerra tornou o filme distante e incomunicável. Mesmo assim, ele não abre espaço para maniqueísmo.
O protagonista se envolve com pessoas ligadas a seu passado e desconhecidos seres feios, sujos e malvados, que tentam sobreviver numa esfacelada cidade. Ruy Guerra povou o filme com os mais variados sotaques, o que contribui para distanciar mais a obra. A austeridade dos rostos humanos, das locações desoladoras e surrealistas faz com que o outsider, desprovido de individualidade, perambule sem destino. A voz em off do protagonista é de Ruy Guerra. O ponto alto da obra é a câmera frenética comandada por Marcelo Durst (colaborador de Beto Brant), que se mostrou ousado, ao desafiar o bom gosto estético. ‘‘Estorvo’’ é um filme incômodo e retrata a diversidade da cinematografia brasileira. Distribuição: Europa Filmes, duração: 95 minutos.
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