CARNAVAL Incoerência à vista!!! Pesquisadora analisa a História do Brasil contada nos enredos das escolas de sambas de São Paulo ReproduçãoArquivo FolhaGrande parte das escolas não conseguiu trabalhar o ‘‘Descobrimento do Brasil’’ de forma reflexiva Sílvia Herrera Agência Estado. No carnaval 2000, o tema é um só, tanto em São Paulo como no Rio de Janeiro: 500 anos do Descobrimento. No Rio esqueceram de incluir nosso Tiradentes; e em São Paulo, o que está faltando? Os sambas-enredo condizem com a verdadeira história? Essas e outras dúvidas foram explicadas pela professora Eloiza Maria Neves Silva, da Universidade de São Paulo (USP), do Núcleo de Estudos em História Oral. ‘‘Tarefa difícil se considerarmos as polêmicas e as ambiguidades, tanto no que se refere às divisões de temas, quanto aos assuntos abordados’’, observa. ‘‘Por outro lado, as agremiações contam ainda com a responsabilidade de agradar ao público, seus componentes, intelectuais, historiadores, imprensa, enfim, um série de segmentos que se posicionam de forma divergente sobre as versões e abordagens de cada tema.’ Ela esclarece que a escolha da periodização cronologicamente linear não garante, necessariamente a ‘‘cobertura’’ de todo o período determinado à cada escola. O desenvolvimento do enredo será, nesse sentido, um sinalizador sobre o que foi ou não valorizado pela escola dentro dos seus respectivos temas. ‘‘Embora seja tradicional, acredito que, dentro da proposta da própria divisão, não temos grandes esquecimentos’’, avalia. Com relação a veracidade dos fatos, Eloiza argumenta que em primeiro lugar, precisamos pensar em que consiste e para quem se formula essa tal verdade. ‘‘Logicamente, hoje temos discussões que colocam em xeque algumas concepções antigas sobre os ‘fatos históricos’, mas acredito que a maior parte das escolas de samba teve uma preocupação muito mais didática do que analítica, o que não deixa de ter o seu valor’’, frisa. Mesmo porque, salienta, não há consenso sobre a comemoração dos 500 anos, uma vez que esta levaria em conta apenas o período posterior à chegada dos portugueses, desconsiderando os grupos indígenas aqui existentes enquanto agentes históricos. ‘‘E há ainda as lideranças do movimento negro que questionam a idéia de comemoração de um processo que resultou na dizimação de todo um continente e na implementação de um modelo econômico baseado na exploração do trabalho de um povo, que apesar de ter em seus descendentes os principais atores do ‘maior espetáculo da terra’, não conseguiu ainda atingir níveis de dignidade e qualidade de vida condizentes com o que se propõe como direitos humanos’’, destaca Eloiza. Na sua opinião, os sambas contém muitos elementos do senso comum. Embora as escolas fundamentais, que têm a sua disposição muito mais tempo, nem sempre consigam trabalhar esses temas de forma reflexiva, há atualmente um aspecto positivo no que se chama ‘‘conhecimento popular’’, a consciência da possibilidade de existência de várias versões sobre um determinado assunto. ‘‘É essa desconfiança saudável que faz com que muitos fatos já sedimentados sejam questionados. Acho que as escolas de samba que geralmente têm no seu enredo alguns elementos de crítica social, são também responsáveis por isso’’. A professora diz que seria muito simples para as escolas de samba, privilegiar um segmento, ou fazer o desfile crítico ou politicamente correto, baseado em informações de livros didáticos mais recentes. ‘‘No entanto, há que se pensar, que o samba é apenas parte do enredo’’, afirma. Eloiza lembra que a disposição das alas, as fantasias, as alegorias, os carros, enfim, a escola como uma totalidade é que nos dará a dimensão da postura do carnavalesco e sua agremiação diante do seu período histórico em desfile. Eloiza ressalta outra questão, o público. ‘‘A grande maioria destas pessoas têm consciência das ‘falcatruas’ presentes em nossa História, tanto que já virou senso comum a idéia de que os livros só contêm mentiras. O público do carnaval busca acima de tudo diversão, beleza, boas vibrações e essa foi a preocupação da maioria das escolas ao escolherem seus sambas-enredo’’, explica. ‘‘Seria coerente atribuir às escolas e seus componentes a responsabilidade de suprir falhas de um sistema de ensino conservador e elitista?’ Entretanto, ela frisa ter encontrado alguns chavões nos sambas-enredo: ‘‘Avante meu Brasil/ Pátria amada idolatrada mãe gentil’’ (Vai-Vai), ‘‘Um grande pai/ Que amou nossa nação’’ (Nenê de Vila Matilde), ‘‘Nasceu São Paulo da garoa’’ (Camisa Verde e Branco), ‘‘Minha pátria amada, idolatrada/ Terra abençoada, meu gigante Brasil’’ (Unidos do Peruche) ‘‘Nossa pátria mãe gentil’’ (Imperador do Ipiranga) – e exaltações à democracia racial e à mistura das três raças tão comuns, nesse estilo :‘‘Na mais linda cor, no mais quente sabor/ Da raça brasileira’’( X-9) e ‘‘Meu Brasil/ Mistura e magia’’(Águia de Ouro). Mas, acrescenta a professora, há também passagens de crítica social como ‘‘500 anos de progresso / Sem justiça social (Vai- Vai), Como nos dias de hoje/ tem poucos com muito/ e muitos que nada tem’’ (Leandro de Itaquera). ‘‘Enfim, percebe-se em diferentes graus a preocupação por parte das escolas em apresentar um carnaval didático, como o solicitado, mas com ingredientes próprios das escolas. Fica claro em alguns sambas, a tentativa de se contemplar todo o período determinado, sem deixar escapar um único fato. O próprio critério de fato histórico levou em conta o que já era tradicionalmente conhecido’’, avalia. De acordo com Eloiza, faltou nos sambas o cotidiano das pessoas comuns. ‘‘Mas a opção era necessária: aprofundar um tema em suas diversas versões ou representar um panorama de época na avenida. Como disse, o samba é apenas uma parcela do desfile, e os compositores têm que preocupar-se com a melodiosidade do samba, pois é a troca de energias que se dá entre platéia participante e componentes que realça o colorido das plumas, brocados e paetês.’ Um aspecto importante a ser considerado, na opinião da professora, é que um samba-enredo cantado na tevê ou em um CD não se aproxima, absolutamente, do que acontece nos ensaios e na avenida. ‘‘Conhecer o dia-a-dia das escolas nos períodos que antecedem o carnaval é fundamental para que deixemos de lado essa postura, que cobra de pessoas pertencentes a segmentos socialmente abandonados, versões revolucionárias e inovadoras de fatos históricos. Versões sequer adotadas pela maior parte das escolas de ensino fundamental’’, enfatiza. Para Eloiza, a grande lição que as escolas de samba levam para a avenida é aquela que a maior parte dos brasileiros já aprendeu, por força das circunstâncias: driblar dificuldades, assumir funções concomitantes de economistas, administradores, costureiros, pintores, carregadores, cozinheiros, vendedores, cantores, dançarinos, buscando, acima de tudo, transmitir alegria àqueles que se dispuseram a assisti-las na avenida ou na televisão.