A chacina da Candelária foi uma tragédia emblemática, no Brasil, ao provocar uma grande mobilização coletiva em torno das condições de vida de crianças e adolescentes moradores de rua.
A ação policial que resultou em oito mortes no centro do Rio de Janeiro não gerou apenas indignação, mas impulsionou a criação de uma série de ONGs e iniciativas diversas voltadas para a inclusão social dos menores.
As organizações não governamentais Associação Meninos do Morumbi e Projeto Villa-Lobinhos, coordenadas pelos músicos Flávio Pimenta e Turíbio Santos, respectivamente em São Paulo e no Rio de Janeiro, surgiram dentro desse contexto como respostas da sociedade civil ao massacre ocorrido em 1993.
Ambas trabalham com ensino musical e são consideradas modelos de atuação na área. Durante quatro anos, foram temas de pesquisa da professora Magali Kleber, que em 2006 defendeu tese de doutorado sobre os dois projetos no programa de Pós-graduação em Música, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
A tese virou livro, que será lançado hoje, às 19h30, na Livrarias Curitiba, no Catuaí Shopping Center, em Londrina. Intitulado "A prática de educação musical em ONGs – Dois estudos de caso no contexto urbano brasileiro", o volume de 316 páginas chega às prateleiras pela editora Appris reunindo depoimentos de professores, monitores e participantes.
"É um fruto de minhas indagações, porque todo estudo científico vai além da busca de um achado e se apresenta como um caminho e uma resposta para questões que inquietam o pesquisador. Os projetos sociais vinculados a políticas públicas, o chamado terceiro setor, sempre despertaram meu interesse e tanto o Meninos do Morumbi quanto o Villa-Lobinhos me surpreenderam ao apresentar conceitos e práticas de educação musical consistentes para esse público que vive em situação de vulnerabilidade", explica ela, que é professora da Universidade Estadual de Londrina e diretora da Casa de Cultura da UEL.
Magali conta que vivenciou diariamente as atividades desenvolvidas pelas duas ONGs durante o período de sua pesquisa de campo. "São experiências potentes que lidam com conflitos que já aparecem nas instituições de ensino da escola básica, como a violência juvenil, a marginalidade e as formas de relacionamento entre alunos e professores. Elas apontam caminhos. Por isso, seus saberes, suas formas de trabalho e modelos de gestão deveriam ser reconhecidos como legítimos", assinala.
Embora tenha concluída sua tese em 2006, não deixou de acompanhar seus objetos de estudo. "A maioria dos garotos que participava das oficinas naquela época atua, hoje, como profissionais da educação musical em escolas e outros projetos sociais", salienta. Ela lamenta, no entanto, que tais iniciativas padeçam de vínculos precários com os poderes públicos, dependendo de recursos do Ministério da Cultura (MinC).
"As ONGs são bons exemplos, mas não constituem uma solução para todos os problemas porque são instituições voláteis, movediças, sem sustentabilidade e podem acabar a qualquer hora. A solução está na existência de uma educação pública de qualidade. O problema é que há uma cisão nefasta entre o MinC e o MEC. Defendo uma política pública integrada que agrege e acolha os bons exemplos vindos dos movimentos sociais", ressalta.
Segundo ela, seu livro chega ao público em linguagem acessível, diferenciando-se de boa parte das publicações acadêmicas. "Busquei sair da linguagem rebuscada tão comum nas obras científicas. Procurei adotar uma linguagem fluente. Me preparei para isso. É interessante fazer o trabalho circular", diz.

SERVIÇO
Lançamento do livro "A prática de Educação Musical em ONGs – Dois Estudos de Caso no Contexto Urbano Brasileiro", de Magali Kleber
Quando - Hoje às 19h30
Onde - Livrarias Curitiba (Catuaí Shopping Center), em Londrina
Preço - R$ 55

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