Nadar contra a maré ensinando disciplina para indisciplinados e respeito a garotos acostumados às ruas, brincadeiras sarristas e, às vezes, agressivas. Esse é o trabalho que o Instituto de Educação Infanto Juvenil desenvolve com os adolescentes da Guarda Mirim. Convidado pela Promotoria da Infância e Juventude para atuar na área pedagógica, o instituto realiza oficinas e projetos na instituição desde abril do ano passado.
Atualmente, 320 adolescentes de risco entre 13 e 16 anos são atendidos na Guarda Mirim. Eles foram encaminhados pela rede de atendimento ao adolescente de Londrina, que engloba várias institutições, como o Conselho Tutelar. Cada um permanece um período (manhã ou tarde) no local e recebe duas refeições diárias. Eles têm um momento reservado para fazer as tarefas escolares e participam de projetos diversificados, como canoagem, hip-hop, grafitagem, culinária e informática.
''Esse trabalho é a única forma deles se retomarem como pessoas e buscarem um caminho para si mesmos'', aponta a orientadora educacional do instituto, Luiza Leonor Cavazotti. Ela detalha que os educadores utilizam a metodologia piagetiana em que a aprendizagem não se faz por matérias e sim por problemas e se faz necessário perceber o nível de desenvolvimento do educando para ensinar.
Luiza observa que o tempo de atenção desses adolescentes é muito pequeno e que eles apresentam dificuldades para ler, interpretar textos e desenvolver raciocínio lógico matemático. ''Aqui, enfrentamos uma realidade diferente da nossa escola. São meninos que não acreditam em sua capacidade de aprender e têm resultados ruins em suas escolas'', ressalta. Por isso, Luiza diz que não dá para trabalhar de maneira convencional com os adolescentes para evitar essas barreiras e falta de interesse.
Aliás, a vontade dos garotos é levada em consideração até na hora de definir em qual oficina ele irá participar a cada três meses, tempo de duração de cada uma. Mesmo assim, os problemas ainda persistem. A disciplina, por exemplo, é citada pela orientadora como a maior dificuldade enfrentada. Para minimizar isso, ela define que os educadores utilizam ingredientes como amor, justiça, paciência e obediência às regras. Drogas, cigarro e bebidas também são obstáculos a serem vencidos na instituição. Quando alguém é flagrado portando algo proibido, é chamado para conversar e a droga ou cigarro é jogado fora. Caso o problema seja maior e envolva tráfico, a polícia é acionada.
Mas, apesar das punições, há uma diferença característica na Guarda Mirim em relação às escolas. Independente do que os adolescentes façam, eles jamais são expulsos da instituição. ''Trabalhamos com o princípio da inclusão que deveria estar em todas as escolas'', justifica Luiza.
Conversando com alguns adolescentes, é fácil notar a preferência deles pelo hip-hop. D.D.A, 15 anos, é um dos que ''curtiram'' a oficina. Ele mora no Jardim Marabá e está na 7 série. ''Eu gosto da Guarda (Mirim), acho que desenvolve mais o nosso interesse'', diz. Entre gargalhadas e gozações, outros adolescentes falam de suas preferências. ''Gosto da aula de desenho'', indica D.P., 14 anos. Morador do Conjunto Ernani Moura Lima, o garoto chega a imaginar que o desenho pode um dia virar profissão.
Mas pensar em profissão parece não ser uma atividade muito comum entre eles. Após hesitar algum tempo, E.F., 14 anos, diz que gostaria de trabalhar com construção e pintura de casas. Diferente dos outros, ele diz que não gosta muito da instituição. ''Não gosto quando a molecada começa a zoar'', justifica. Entretanto, E. enumera que aprecia o futebol, a canoagem e também a atividade em que aprendeu a marchar. ''Mas preferia aprender a mexer mais com computador'', retruca.
O projeto na Guarda Mirim foi incrementado este ano com outro convênio firmado entre a Sercomtel e a instituição. A empresa de telefonia irá repassar R$ 300 mil anuais durante dois anos, o que possibilitou a contratação de mais educadores. Luiza diz que até o ano passado eles tinham uma verba de R$ 35 por adolescente e por isso os grupos de trabalho precisavam ser grandes. Com o aumento no número de educadores, é possível atualmente trabalhar com pequenos grupos, facilitando o contato e o processo de aprendizagem. Para Luiza, o apoio da Sercomtel será muito válido. ''Eles estão investindo em uma coisa que não aparece. Os resultados serão menos violência e infrações'', sentencia.

mockup