São Paulo, 08 (AE) - Marcel Proust nasceu em uma família burguesa, em 1871. Seu pai era um médico famoso e a mãe, uma judia rica de sobrenome Weil. Marcel foi aquele tipo de garoto enfermiço, que sofreu de asma desde pequeno. O detalhe não deixa de ter importância. Segundo um dos seus intérpretes contemporâneos, o italiano Pietro Citati (autor de Proust e a Recherche, lançado no Brasil pela Companhia das Letras), a doença tornou-se uma espécie de segunda natureza. À asma, associou-se uma insônia pertinaz e a vocação para o isolamento. Sem esses elementos, Marcel teria sido um burguês como outros. No entanto, havia uma obra a ser feita.
E que teve início relativamente tarde. De 1895 a 1899, ele escreveu "Jean Santeuil", livro autobiográfico que já prefigurava a "Recherche". No entanto, Proust ainda era excessivamente apegado à vida mundana dos salões parisienses. Seria aos poucos que ele iria afastar-se da vida social, consciente de que deveria dedicar mais tempo à escrita. Nos primeiros anos do século morrem seu pai e sua mãe. Proust começa a pensar em escrever um grande livro. Mas apenas em 1909 um incidente lhe abre as portas da recordação.
Proust estava bebendo chá de tília e comendo um prosaico biscoitinho (uma madaleine) quando as sensações de olfato e sabor trouxeram de volta toda uma fatia de recordações de infância que parecia perdida para sempre. O livro nasce desse pequeno incidente. E dele nasce, também, uma teoria da memória subjacente à obra. O edifício da recordação aparece estratificado como uma construção física, porém desprovida de centro. Pode ser visualizado nem tanto por um esforço da memória voluntária, mas pelas recordações involuntárias.
Assim, os desencadeadores de toda a obra serão incidentes mínimos, como o gosto da madaleine, o cheiro do chá, o tropeção numa pedra solta do calçamento de Veneza, o ruído de uma colher batendo na xícara. Coisas assim. Quando Proust se apoderou desses materiais de construção viu que tinha uma obra concreta para realizar. Deu fim definitivo à sua vida social, trancou-se em casa, em companhia de uma criada, Céleste. Encerrou-se no quarto onde dormia e trabalhava, protegido por cortinas pesadas, que impediam a entrada da luz e da poeira, que fazia mal para sua asma. Mandou forrar as paredes com cortiça, para que os ruídos também não viessem a atrapalhá-lo. Propôs-se um trabalho gigantesco. Quando morreu, em 1922, ainda revisava, remexia, cortava e acrescentava partes a "O Tempo Redescoberto", último volume da "Recherche". (L.Z.O.)

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