A minissérie ‘‘Os Maias’’, que estréia na Globo na terça-feira, narra a conturbada história de amor de Carlos de Maia e Maria Eduarda, que se apaixonam sem saber que são irmãos. Os pais do casal são Pedro da Maia e Maria Monforte, mulher impulsiva que foge com o amante, levando a filha e deixando o primogênito com o pai. Pedro, porém, não suporta o abandono e se suicida. O menino, então, passa a ser criado pelo avô. À primeira vista, a trama de ‘‘Os Maias’’ bem que poderia ter sido escrita pelo dramaturgo Nelson Rodrigues. Mas saiu mesmo da imaginação do escritor Eça de Queirós. Em homenagem ao centenário de morte do autor português, Globo e SIC se uniram na produção de ‘‘Os Maias’’, que vai ser exibida simultaneamente no Brasil e em Portugal. ‘‘A minissérie combina alto grau de emoção com uma visão crítica da sociedade portuguesa. Essa combinação é estimulante’’, acredita a autora Maria Adelaide Amaral.
Para viabilizar o projeto, Globo e SIC investiram R$ 8,8 milhões na produção da minissérie. A maior parte do orçamento saiu dos cofres da Globo, que arcou com R$ 6,6 milhões. A produção de 44 capítulos não chega a ser a minissérie mais cara feita pela emissora – o custo por capítulo foi de R$ 200 mil contra R$ 220 mil de ‘‘A Muralha’’, por exemplo –, mas é a que consumiu mais tempo em gravações fora do país. Durante seis semanas, 26 atores e 95 membros da equipe técnica gravaram em cidades portuguesas, como Lisboa, Coimbra e Porto. ‘‘Queria o máximo de realismo possível. Não ficaria bem colocar figurantes para pisar uva no Projac’’, argumenta o perfeccionista diretor Luiz Fernando Carvalho.
A minissérie ‘‘Os Maias’’ inaugura também a parceria entre a autora Maria Adelaide Amaral e o diretor. Nascida na cidade do Porto há 57 anos, a autora confessa que está realizando um sonho antigo. Há três anos, ela levou o projeto ao conhecimento do então diretor geral de criação da Globo, Daniel Filho, e ficou boquiaberta ao saber que Glória Perez já tivera a mesmíssima idéia. Assim que terminaram as gravações de ‘‘A Muralha’’, Maria Adelaide voltou a conversar com Daniel Filho e ficou sabendo que Glória Perez havia desistido da minissérie em prol da novela das oito. ‘‘Sempre achei que tivesse mais condições de adaptar ’Os Maias’ até por minha origem. Aos 15 anos, já tinha lido a obra completa do Eça de Queirós’’, vangloria-se, imodesta.
Enquanto Maria Adelaide escrevia as primeiras linhas, Luiz Fernando iniciava a escalação dos atores para a minissérie. A principal meta estabelecida pelo diretor foi a de revitalizar a imagem do par romântico da história: Fábio Assunção e Ana Paula Arósio. ‘‘Não estava a fim de olhar para a Ana Paula e ver a garota 21 da Embratel. A imagem dela andava muito massificada’’, lamenta o diretor. Para evitar que os novos personagens lembrassem os antigos, Luiz Fernando sugeriu que Ana Paula ficasse loura e Fábio deixasse a barba crescer. Além disso, os dois teriam de usar lentes de contato na cor castanha. ‘‘O ator tem de mudar sempre que puder. Ainda estranho quando olho no espelho, mas este visual ajudou na composição da Maria Eduarda’’, reconhece Ana Paula.
Na trama, a atriz interpreta Maria Eduarda, outra heroína sofredora que tem um passado a esconder. Ela chega a Portugal, acompanhada do marido, interpretado por Paulo Betti, e da filha Rosa. Quando se apaixona por Carlos da Maia, fica dividida entre a paixão que sente por um e a gratidão que nutre pelo outro. ‘‘Quando o primeiro marido da Maria Eduarda morreu na guerra, foi o Joaquim quem acolheu a família dela’’, esclarece Paulo Betti. Segundo a autora, o clímax de ‘‘Os Maias’’ acontece quando Carlos da Maia e Maria Eduarda descobrem que são irmãos.
Por enquanto, Maria Adelaide pretende se manter fiel ao original, mas já avisou que não vai hesitar em alterar o final se ele for anunciado antecipadamente pela imprensa. ‘‘Se insistirem em estragar a surpresa, vou fazer igual à novela ‘A Próxima Vítima’. Vamos gravar o último capítulo ao vivo para manter o suspense’’, brinca. No livro, Maria Eduardo abandona Carlos de Maia ao descobrir que os dois são irmãos.
A atriz curitibana Simone Spoladore é a principal aposta do diretor Luiz Fernando Carvalho. Na minissérie, ela interpreta Maria Monforte, a principal personagem feminina da primeira fase. Por pouco, o papel de cortesã não foi parar nas mãos de Letícia Spiller, que trabalhou com Luiz Fernando em ‘‘O Rei do Gado’’. O diretor, porém, mudou de idéia ao constatar que teria trabalho em renovar a imagem de Letícia. ‘‘O público não vai ter qualquer dificuldade em aceitar Simone Spoladore como Maria Monforte’’, garante. Luiz Fernando e Simone já trabalharam em ‘‘Lavoura Arcaica’’. No filme, Simone interpreta Ana, filha de imigrantes libaneses que vive uma relação incestuosa com o irmão, papel de Selton Mello. ‘‘Morro de medo das críticas, mas me sinto segura nas mãos do Luiz Fernando’’, derrama-se.

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