Apostando na leitura como um potente caminho para a construção da cidadania, o Sesc Londrina chegou a sua 32ª Semana Literária & Feira do Livro, realizada de 16 a 21 de setembro. Com atividades voltadas para crianças, adultos e idosos, a programação variada foi organizada dentro do conceito de que a literatura precisa seduzir, encantar, inquietar, transformar e construir mais leitores.
Ao homenagear o autor Bartolomeu Campos de Queirós, o evento trouxe à tona um dos autores contemporâneos mais conhecidos da atualidade, que chegou a dizer que "a leitura literária promove em nós um desejo delicado de ver democratizada a razão. (…) Todo sujeito guarda dentro de si um outro mundo possível e pela leitura literária esse anseio ganha corpo. É com esse universo secreto que a palavra literária quer travar a sua conversa. O texto literário nos chega sempre vestido de novas vestes para inaugurar este diálogo e, ainda que sobre truncadas escolhas, também com muitas aberturas para diversas reflexões." Já o patrono do evento é o escritor Manoel Carlos Karam, que ganhou uma exposição com diversos objetos baseada em seus livros.
No saguão principal, diversas bancas de livros atraíam os olhos das crianças. Em cada editora, um mundo diferente era descoberto. Próximo ao refeitório, um estande do Projeto Futuro Integral era um dos mais visitados. Desenvolvido pelo Sesc em 7 escolas estaduais, no contraturno, ele funciona em 2 eixos: letramento e raciocínio lógico. No caso do primeiro eixo, foram trabalhados poemas de Bartolomeu Campos de Queirós em produção de texto e gravação em vídeo. Segundo a orientadora de atividade do Projeto Futuro Integral, Patrícia Trovino, "essa formação continuada promove uma participação maior de toda a comunidade na escola: alunos, comunidade e professores".
Para os alunos a partir de 6 anos, no Salão Social, uma série de escolas participaram da "Contação de histórias: Vamos contra outra vez?", com a atriz e contadora Anna Dulce. A narração foi baseada em cinco livros do autor Bartolomeu Campos de Queirós: "Coração não toma sol", "Isso não é um elefante", "Os cinco sentidos", "Estoria em três atos" e "O livro de Ana". "Nós precisamos acariciar as palavras com os olhos...", a contadora dizia para o grupo de crianças que a cada hora chegavam para se deliciar com a narrativa. "O importante na contação é despertar a imaginação, e considero necessário, mesmo para os professores, o estudo de técnicas vocal e corporal. Como contadora, sempre me preocupo com a presença de palco, a coreografia do corpo, o gestual e cuido do olhar para que ele segure a atenção das crianças", avalia Anna.
Após essa atividade, as crianças participaram da oficina "Um Livro para uma história: recontando Bartolomeu Campos de Queirós", com Adriana Siqueira. Em uma folha tamanho A4, foram feitas dobras e um corte para se conseguir um pequeno livro com 4 páginas, capa e contracapa. A proposta era recontar com desenhos a história de autoria do homenageado.
Em outro ambiente, a "Oficina de Aquarela com Poesia", para alunos acima de 12 anos, movimentou a imaginação e o talento artístico dos jovens. Sob a orientação cuidadosa de Dani Chineider, licenciada em Artes Visuais pela Universidade Estadual de Londrina, os alunos do Colégio Estadual Roseli Piotto e do Centro de Atenção Psicossocial (Caps) de Londrina se admiraram com a possibilidade de fazer o diálogo da palavra com a cor: pensar poesia e cor.
A partir de um pequeno poema de Bartolomeu Campos de Queirós - "O guarda de guarda-chuva" -, a oportunidade de descobrir técnicas e composições pictóricas elaboradas com o olhar atento para o campo expandido. E como o tema do poema era "chuva", o resultado final resultou em belas releituras coloridas e criativas feitas em papel-cartão, com tinta acrílica e nanquim diluídas em água.
E o detalhe já começa no jeito de pegar o pincel: ele deve ser segurado com leveza na parte do meio - e sem delicadeza não há um bom resultado final. "É importante respirar a cada pincelada", observava. Lição que as turmas parecem ter aprendido na apresentação dos trabalhos, que incluiu também releituras do poema gerador da atividade.
A "Cabana da Leitura", feita de papelão, também chamava a atenção das crianças por ter na parte interna várias almofadas coloridas para as crianças se sentarem confortavelmente e uma boa variedade de livros novos.
Na programação, também foi exibido o documentário "Helena de Curitiba" (2005), de Josina Melo. O documentário narra a história da professora e poetisa paranaense Helena Kolody. Traz imagens e depoimentos inéditos da poetisa, colhidos um mês antes da sua morte, em fevereiro de 2004, aos 92 anos.

Trabalho de 'formiguinha'
A coordenadora Yuka Toyama Borges ressalta que a demanda é grande e que cada vez mais as escolas procuram o evento, que é gratuito e disponibiliza ônibus aos visitantes agendados. "É um trabalho de 'formiguinha' para a formação de público, mas que precisa ser feito", afirma, acrescentando que o evento ganhou o formato de Semana Literária há quatro anos.
E no caso dos eventos dirigidos ao público adulto, à noite, que traz escritores renomados para bate-papos com o público londrinense, ela lamenta que a população ainda não se deu conta da sua importância. "Por sermos uma cidade pequena, e até mesmo pelo fato da nossa Sala de Espetáculos ser reduzida, isso permite uma maior aproximação com os escritores, algo raro tanto na Bienal do Livro, em São Paulo, quanto no Festival de Literatura de Paraty (Flip), no Rio de Janeiro. Quase que dá para convidar o autor para tomar um cafezinho em casa; o Fabrício Carpinejar é um que seria capaz de aceitar...", brinca.

mockup