Era uma vez uma professora que tinha medo de contar histórias. Ela era uma boa professora, mas não se sentia bem ao ler em voz alta para seus alunos. Muitos anos se passaram até que um dia, ao contar uma história, ela chorou. Nesse dia, ela se lembrou que quando era criança tinha sido forçada a contar uma história diante de toda a turma, fato que virou trauma. Hoje, superada a dor, ela encanta seus alunos com suas histórias e mal sabem eles do valor que elas têm.
Essa história não está nos livros infantis, mas é verídica e demonstra o cuidado que precisamos ter quando apresentamos os livros às crianças, tão ávidas pela descoberta do novo. É uma chance preciosa que não pode ser desperdiçada e cabe aos professores e pais valorizar esse momento em que há disponibilidade para ouvir e o mágico é tão presente na vida das crianças.
Uma boa contação estimula a imaginação, apresenta as mais diversas situações em que as crianças podem se projetar e vivenciar as mais diferentes emoções. Tem histórias que dão medo, vontade de chorar e pedir colo. Outras nos divertem, são de dar gargalhadas e fazer xixi na roupa de tanto rir. Tem também aquelas que não sabemos bem o porquê, mas temos vontade de ler toda hora, repetidas vezes, até que se esgoste tudo aquilo que elas têm a nos ensinar.
É um mundo vasto esse das letrinhas que, no caso das histórias infantis, vem entremeado de muitas ilustrações que ajudam nesse diálogo que pode se tornar íntimo e cativante. E é devido ao reconhecimento cada vez maior da importância da contação de histórias que muitas escolas vêm dando mais espaço para esse momento.
É o caso da Escola Municipal Maestro Andrea Nuzzi em que a professora Altina Narciso Rocha desde 2002 vem se dedicando a contar histórias aos seus alunos de 1 à 4 série do ensino fundamental através do projeto ''Palavras Andantes'' realizado pela prefeitura.
Sempre procurando fugir da rotina, cada canto da escola é o espaço ideal para um conto. Um dos lugares preferidos é à sombra das árvores no pátio da escola. Utilizando panos coloridos, tapetes e objetos cênicos, tudo vira instrumento para soltar a imaginação. Sentada em uma cadeira que a deixa na altura dos pequenos, a voz doce e suave delicadamente vai instilando nas crianças o gosto pela leitura.
Um incentivo à mais foi a elaboração da ''Árvore da Leitura'' - um painel em que os alunos que espontaneamente contam aos colegas as histórias que leram colocam uma folhinha com o seu nome e o livro lido. No final do semestre, os alunos que mais leram ganham um livro. Um bom exemplo é o caso do aluno Nicolas Molinari Bento, 8 anos, que já tem várias folhinhas coladas no painel, uma árvore cada vez mais frondosa.
Outra ideia simples e criativa foi a confecção do personagem ''Livrinho'' a partir de material reciclável. Como um guardião, ele fica do lado de fora da sala de aula quando é hora de contação - uma forma de sinalizar que o momento é especial e não deve ser interrompido. ''De certa forma ele impõe respeito e ajuda no trabalho'', comentou Altina.
Na Escola Apoena a contação também é muito valorizada desde a educação infantil. Coordenado pela professora Guiomar Pimentel, o trabalho ganha contornos mais artísticos com a participação do arte-educador Rafael Rosa, que trabalha com cantigas e histórias populares. E as histórias podem se desenrolar também em qualquer lugar. Na sala de aula, no pátio ou aos pés da grande figueira para o deleite das crianças.
Gostar da história e ter se preparado com antecedência para contá-la são fundamentais para a atividade na opinião da contadora Guiomar, que é formada em jornalismo e desde 1997 se apaixonou pela arte de contar e decidiu fazer pedagogia e artes. ''Eu mesma confecciono as roupas e os adereços que utilizo na contação e isso já é uma forma de carinho, um cuidado anterior com a história e as pessoas que irão ouvi-la'', afirmou.
Ciente do poder de transformação que cada história contém e a sua ligação afetiva, Guiomar defende que quando as crianças são tolhidas de ouvir boas histórias na verdade está se tirando delas a capacidade de sonhar. ''E quando perdem o sonho, as crianças deixam de ter perspectiva e isso afeta toda uma vida'', complementou.

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