Da forma ao conteúdo, a catedral de Notre-Dame, em Paris, é símbolo de arte. Não por acaso, atrai turistas de todo o mundo para ver - com os próprios olhos, quadros, esculturas, objetos históricos e a estrutura arquitetônica em si. Até o momento, não se sabe a origem e nem a extensão do que foi consumido pelo fogo e que fez de Notre-Dame, no início da Semana Santa, assunto de tuítes a manchetes nos dois hemisférios. O que se pode assegurar, sem dúvidas, é que certo estrago foi feito.

Notre-Dame antes e depois: além dos santos, retirados antes do incêndio para reparo,foram salvos três órgãos, os sinos, vitrais e pinturas em homenagem à Virgem Maria, pintadas sempre no mês de maio
Notre-Dame antes e depois: além dos santos, retirados antes do incêndio para reparo,foram salvos três órgãos, os sinos, vitrais e pinturas em homenagem à Virgem Maria, pintadas sempre no mês de maio | Foto: Ludovic Marin/ AFP

Sem desprezar o passado, os acontecimentos presentes e as gerações futuras, a professora de História e Diretora de Patrimônio do Município, Solange Batigliana, considera, sim, que o incêndio que atingiu o monumento, representa uma perda. “Da perspectiva do que trabalhamos, temos uma parte muito importante da Europa Medieval contada em todas as catedrais da Europa. Esta, por conta do romance do escritor francês Victor Hugo,'O Corcunda de Notre-Dame', presente na Literatura e no Cinema, permite que as pessoas relacionem a catedral imediatamente”, sinaliza.

Os vitrais, as rosáceas, os imensos arcos são características que se agrupam ao conjunto e tornam a obra tão admirada. “Também é fantástica do ponto de vista histórico, pois se deu lá a coroação de Napoleão Bonaparte como imperador e a catedral guarda ainda a Santa Coroa”, diz a professora. De acordo com as tradições da igreja católica, foi esta a coroa utilizada por Jesus Cristo antes da crucificação e ela não sofreu danos com o incêndio. A peça é considerada a relíquia mais valiosa de todo o templo. “Ao mesmo tempo, Notre-Dame já passou por outros momentos de destruição e o povo francês a reergueu”, observa. “Mas o que se perde, é a originalidade. O trabalho de homens, a madeira original do século XIII, estes foram perdidos”.

Outro aspecto abordado por Solange Batigliana é a comoção do povo francês. “Essa é uma peculiaridade e prova o afeto em relação ao monumento, à história, à arte e a toda uma cultura de tradições que se fortalece em situações como essa”. Além dos santos, salvos antes do incêndio para reparo, ficaram intactos os três órgãos - sendo o principal o conhecido como Grande Órgão. Ele possui cinco teclados, 109 peças e quase 8 mil tubos, talvez o mais famoso do mundo; os sinos, as pinturas, encomendadas sempre em maio, por isso Mayes, em homenagem à Virgem Maria também foram salvos. As estátuas e os vitrais, tidos entre as maiores obras-primas do cristianismo estão de pé. A obra data de 1163, demorou 180 anos para ser concluída e seu nome Notre-Dame,em português, significa "Nossa Senhora."

Solange Batigliana: “Em um incêndio como esse, perde-se a originalidade das peças”
Solange Batigliana: “Em um incêndio como esse, perde-se a originalidade das peças” | Foto: Ricardo Chicarelli

Destruição mexe com a memória de londrinenses

Como mensurar o valor das tradições de um povo? Seus aspectos culturais, históricos, materiais e imateriais possuem significado que transcende cifras e sua simbologia permeia gerações. Diante do fogo que invadiu a linha do tempo e deixou os homens estáticos, o saldo é de perdas. Da fagulha não vista à agulha desmoronando, a iniciativa, em horas, em levantar fundos para a reconstrução da catedral, é exemplo de união que fica. Dois dias após o incêndio, milionários, inclusive brasileiros, juntaram 796 milhões de euros.

Quem já esteve em Notre-Dame expõe sentimento de perda, consternação e reconhece também a atual campanha. A publicitária Mikella Negrão soube do incêndio por meio de seu pai, o jornalista Gelson Negrão e, horas após o noticiário se espalhar pelo mundo, não escondia o sentimento de tristeza. A data da visita, como estava o dia do lado de fora, os detalhes internos e o que virou cinzas estão no relato de turistas londrinenses como ela.

“Fiz o processo inverso da maioria: entrei pelos fundos, acessei o seu topo depois de quase 400 degraus – era a primeira aventura pós-acidente de carro - e de lá de cima chorei com a vista que ela me ofereceu na companhia dos gárgulas no sol do meio dia”, recorda. “Desci os 70 metros, assisti à missa mais linda de todas mesmo sem ser católica, registrei inúmeras plantas e placas de um símbolo parisiense e, ao final, olhei para a sua fachada oriental, que em nada deixa a desejar quando se conhece o restante.” O incêndio fez Negrão chorar novamente. Um choro grato por ter vivido pra ver tudo isso, e igualmente extremamente triste pelo registro que se vai”.

A jornalista Maria Clara Aranda Martins fez sua primeira visita no ano de 2017. Era seu aniversário. “Eu tinha um sonho de ver as gárgulas de perto, desde que assisti ao filme 'O Corcunda de Notre Dame', ainda criança. Como não tenho religião, minha curiosidade maior era ver a construção, sob a perspectiva histórica e, como chovia, eu me abriguei na catedral”. Tão logo, Martins rendeu-se à grandiosidade do lugar. “A atmosfera era surreal, a voz do padre ecoava e fiquei mais de uma hora observando maquetes, esculturas, vitrais, urnas etc. Não realizei o passeio pela parte de cima da catedral, que era pago, apesar da curiosidade, mas voltei ao local mais outras vezes e continuei a observá-la por fora, com seus milhares de detalhes esculpidos.

Aranda lamenta. “Mais um pedaço de história se esvaindo, assim como vi de perto o incêndio do Cine Teatro Ouro Verde em 2012, e por imagens, o Museu da Língua Portuguesa, em 2015 e o Museu Nacional do Brasil, em 2018. São momentos em que perdemos um pouco do chão sobre o que há de concreto, literalmente. Um misto de indignação e pesar imenso”, reflete.

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