Curitiba - A exibição do filme ``A Partilha`` dirigido pelo carioca Daniel Filho inaugurou o primeiro cinema do programa paranaense Circuito Velho Cinema Novo, em Morretes, no Litoral do Estado, anteontem à noite. O programa prevê a restauração de 13 salas de cinema em todo o Paraná, antes do final da gestão do governador Jaime Lerner (PFL), em 31 de dezembro. A mostra na primeira sala da série não homenageou o cinema ou cineastas paranaenses, como era de se esperar, mas trouxe outras conquistas para o Estado.
Durante a reinauguração do Cine Theatro Municipal de Morretes, fechado para exibições há duas décadas, Lerner assinou um decreto que proíbe o aproveitamento de imóveis utilizados na programação cultural para outros fins. Segundo o governador, a medida vai garantir que nenhum bem cultural possa mudar a sua utilização. O objetivo é preservar a identidade cultural das cidades. Exemplo de como a decisão era esperada pela classe artística foi a perda irreversível de cinemas que faziam parte da história curitibana, como o Astor, Bristol e Condor, que foram transformados em bingos.
Agora, a dois meses do final do mandato, o governo Lerner está concentrado em medidas que possam reverter o quadro de abandono instalado nas últimas décadas no patrimônio cultural. Uma das iniciativas, somada à assinatura do decreto, foi o Programa Velho Cinema Novo. O projeto está consumindo orçamento de R$ 15 milhões, obtidos por meio do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Parte desse investimento ainda está sendo equacionada para garantir que os cinemas escolhidos tenham sistema de projeção. No orçamento inicial, a previsão era adquirir modernos projetores alemães. Projeto que virou sonho diante da alta do dólar.
Lerner admite que o orçamento inicial pode aumentar em função do imprevisto, mas ainda evita falar em números. ``Agora estamos inaugurando um cinema``, disse durante a viagem para Morretes. O governador acompanhou cerca de 100 convidados ilustres e anônimos numa viagem de litorina pela Serra do Mar, com saída de Curitiba. Entre os convidados, estava o diretor Daniel Filho, que sentou ao lado dele durante a viagem.
O convite para o filme de Filho abrir o circuito de cinema aconteceu em Gramado, durante o Festival de Cinema. Na mesma ocasião, em agosto, Lerner havia anunciado o Edital de Cinema, que previa lançar no mês seguinte. A exibição do filme do carioca foi efetivada, mesmo que em projetor alugado, mas os paranaenses ainda vão ter que esperar mais algum tempo para o lançamento do edital que prevê incentivo de R$ 1,2 milhão para dois projetos audiovisuais. ``Está para sair por esses dias``, prometeu Lerner.
Mas antes disso, ainda é preciso acertar detalhes que podem comprometer a boa iniciativa da restauração dos cinemas do Circuito Velho Cinema Novo. A consultora técnica do projeto, cineasta Berenice Mendes, diz que não se trata de uma corrida contra o tempo. ``Estamos estudando a melhor alternativa para o sistema de projeção dos cinemas``, disse.
Salvo mudanças de última hora, a alternativa mais adequada será um sistema de projeção multimídia, que permite a trasmissão simultânea de espetáculos, a partir de uma central, a ser instalada no Teatro Guaíra. Na avaliação de Berenice, a escolha abre possibilidades para que os espaços sejam utilizados também para fins educacionais. ``O sistema permite até mesmo a exibição de programas de canais fechados de televisão``, explica. Uma das vantagens seria a utilização dos cabos de fibra ótica já instalados nos municípios que o programa contempla. A medida depende de parceria com a Copel e Canal Paraná e ainda está em estudo.
Para Berenice, o sistema seria até mais vantajoso do que os projetores de 35 e 16 milímetros previstos inicialmente, já que não limitaria a utilização das salas. ``E está mais de acordo com a realidade das prefeituras``, analisa. Essa é uma outra questão. A forma de gerenciamento dos cinemas depois da reforma também está em estudo. As prefeituras devem assumir, mas a iniciativa privada está sendo sondada com afinco como forma de alavancar a produção cinematográfica local, já que a exibição está (quase) garantida.
Sobre o fato da primeira sala do circuito ter sido aberta com um filme carioca, Berenice tem uma explicação lógica: ``Nós não temos feito muitos longas``, diz, complementando que se sentiu representada com a exibição que antecedeu o filme ``A Partilha``, o premiado curta ``O Encontro``, do paranaense Marcos Jorge.
O cine-teatro de pouco mais de 200 lugares estava lotado durante a exibição. O espaço foi construído na década de 30, depois que um incêndio destruiu o prédio original do século 19. Para adequar o local à quente realidade do município, foram construídas janelas. Isso porque a prefeitura já prevê que o cinema tenha outras funções.
Além de Morretes, estão sendo restauradas salas em Andirá, Apucarana, Arapongas, Castro, Jacarezinho, Guaíra, Lapa, Loanda, Londrina, Morretes, Ponta Grossa, Rio Negro e União da Vitória. Em Ponta Grossa, um acidente durante as obras de reforma matou dois operários e feriu outros sete, há duas semanas. As obras já foram retomadas e de acordo com a prefeitura do município não vai sofrer atraso no cronograma de entrega. A responsabilidade pelo acidente ainda está sendo apurada.
Os próximos cinemas a serem inaugurados dentro do Circuito Velho Cinema Novo são os de Loanda (a 102 km a oeste de Paranavaí) e Andirá (a 36 km a oeste de Jacarezinho). Não há garantia de que, na inauguração, o sistema de projeção já tenha sido instalado.

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