Conhecido como compositor, Ary Barroso também era locutor de futebol. À frente do microfone, ilustrava os gols que saíam com um toque de gaita. Inspirado na sonoridade, Pixinguinha compôs um de seus choros mais famosos: ‘‘1 x 0’’. A composição abre o disco ‘‘Paisagens Brasileiras’’, do pianista Cláudio Dauelsberg, com faixas gravadas ao vivo em Montreaux.
O álbum traduz um trabalho que Dauelsberg vem desenvolvendo desde quando abriu, ainda na infância, um caminho paralelo aos intensos estudos eruditos para abraçar a música popular e mergulhar no improviso. Nascido em família de músicos, Dauelsberg foi menino prodígio no piano e ganhou vários prêmios nacionais.
‘‘Paisagens Brasileiras’’ é um resumo da busca pela música nacional. Há compositores excepcionais como Pixinguinha e Villa-Lobos, e composições próprias. O disco anterior, ‘‘Além das Imagens’’, arrancou elogios da crítica brasileira e européia.
Não é à toa que o pianista chama a atenção: ao eruditismo, algumas vezes sisudo, seu estilo incorporou um molho brasileiro que faz com que suas interpretações revelem uma inteligência musical que vai além da precisão técnica.
O disco traz gravações ao vivo em Montreux, com Dauelsberg no piano, Ney Conceição no baixo, Alexandre Carvalho na guitarra e Robertinho Silva na percussão. Alexandre Carvalho mostra segurança em solos e acompanhamento, duelando com Dauelsberg em ‘‘Ingênuo’’, de Pixinguinha. Ney Conceição dialoga com a percussão de Robertinho Silva e sola em ‘‘Incompatibilidade de Gênios’’, de João Bosco e Aldir Blanc. O veterano Robertinho Silva, que acompanhou Milton Nascimento por anos, é destaque constante.
‘‘Esta gravação ocorreu em uma tarde em que os músicos estavam inspirados. O repertório é uma homenagem a grandes compositores deste século, intercaladas com obras minhas, algumas inéditas’’, comenta Dauelsberg, em entrevista por telefone.
Dauelsberg, em solo, toca ‘‘Raoni’’, dele e de Delia Fischer, também ao vivo. A segunda parte do disco traz ‘‘Polichinelo’’ – peça muito difundida entre o repertório para piano –, de Vila-Lobos, e ‘‘Inútil Paisagem’’, de Tom Jobim, além de ‘‘Infância’’, ‘‘Ventos do Sul’’ e ‘‘Choro à luz de Vela’’, de Dauelsberg.
‘‘O nome ‘Paisagens Brasileiras’ remete a paisagens sonoras, porque estamos falando de música, todas elas retratando um ambiente. Todos esses compositores retratam um cenário muito brasileiro’’, revela. ‘‘Paisagens Brasileiras’’ foge um pouco ao gênero dos outros discos de Claudio Dauelsberg, geralmente mais autorais, com obras próprias: ‘‘Achei importante mergulhar nos compositores brasileiros e contribuir com a minha visão’’.
O resultado é um disco denso, mas com a descontração que um show ao vivo traz. O repertório de clássicos, conhecido do público, tem aspectos realçados com minuciosidade, coisa de quem se debruçou na partitura e cavou acentuações pessoais. Mas não há uma interpretação engessada: os improvisos rendem bons momentos. Enfim, o grupo utiliza de recursos variados, como alterações de andamento, saltos rítmicos e oscilações de intensidade para adornar melodias. As faixas em estúdio não ficam atrás, e trazem instrumentistas do naipe de Zeca Assumpção e Renato Borghetti.
O interesse pela música popular não anulou o intérprete erudito. Contrariando preceitos e expectativas, Dauelsberg transita nas duas raias. Ao mesmo tempo, o instrumentista está terminando o mestrado sobre improvisação na Universidade Federal do Rio de Janeiro. No ano que vem, Dauelsberg planeja gravar, com orquestra, composições de Bach. ‘‘Paisagens Brasileiras’’ saiu pela Rob Digital.

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