Ranulfo Pedreiro
Educação musical, indústria fonográfica, preservação das sonoridades nacionais, busca de espaço. Os temas se multiplicam em argumentos quando os professores da Oficina do Jazz e MPB do 19º Festival de Londrina se reúnem para falar do assunto preferido: música.
Todos trazem no currículo experiências significativas, a maioria é instrumentista veterano. Mané Silveira, no sax; Jorge Oscar, no contrabaixo; Nenê, na bateria; Djalma Lima na guitarra e Paulo Braga no piano se reencontram hoje para uma apresentação no Zaqueu de Melo, a partir das 22 horas.
O repertório traz ‘‘Valsa para Rô’’, de Mané Silveira; ‘‘Choro Louco’’ e ‘‘Magali’’, de Nenê; ‘‘Aquelas Coisas Todas’’, de Toninho Horta; ‘‘Favela’’ e ‘‘Andorinha’’, de Tom Jobim; e ‘‘Pensativa’’, de Claire Fisher. No palco, os instrumentistas mostram qualidade em temas e improvisos, mas sem necessariamente se fundirem ao jazz.
A música instrumental brasileira tem identidade e procura reconhecimento. Não é uma batalha para sobrepujar outros estilos, mas uma guerra para conquistar espaço e mostrar seus resultados. ‘‘A gente sente que as pessoas precisam conhecer melhor o contexto em que estamos inseridos, o que a gente procura fazer é música de criação brasileira, e o Festival é uma oportunidade de fortalecer a imagem do músico brasileiro’’, comenta Mané Silveira.
A preocupação do saxofonista encontra respaldo no pianista Paulo Braga: ‘‘Temos que transmitir a importância da música brasileira para os alunos ouvirem e tocarem, para que eles não se prendam exclusivamente ao jazz americano.’’
A discussão se estende por vários caminhos, mas o consenso é a valorização do instrumentista e compositor brasileiro e as dificuldades que ele encontra para divulgar seu trabalho. ‘‘Se valorizarmos nossa música, futuramente os estrangeiros virão para cá para aprendê-la, como acontece com o jazz nos Estados Unidos’’, explica Paulo Braga.
As tentativas da música pop de absorver ritmos nacionais, como o mangue beat fez com o maracatu, levantam dúvidas: ‘‘Aqueles grupos se interessam pelo ritmo, mas não há desenvolvimento de harmonia e melodia. Essa música brasileira, tradicionalmente bem-feita, é misturada com o heavy, o punk, não tem nada a ver. Mesmo o mangue beat é meio capenga. Acho que revela falta de conhecimento até da música de compositores regionais’’, critica Nenê, que fez parte do Quarteto Novo, ao lado de Hermeto Paschoal. ‘‘Nós fazíamos o contrário, buscando o que foi feito no passado com uma harmonização, com escalas selecionadas para os estilos brasileiros, o grupo atualizava a composição e a melodia’’, afirma.
Os compositores também revelam que há um culto pelo jazz americano, enquanto nomes como Pixinguinha não suscitam a mesma adoração. ‘‘Nos EUA o jazz faz parte da cultura do país. Aqui existe uma música instrumental forte, mas falta um pouco dessa coisa do respeito por parte até das entidades ligadas à cultura’’, ressalta Mané Silveira.
Para o contrabaixista Jorge Oscar, o meio de comunicação que mais demonstra interesse pela música instrumental é a imprensa escrita. ‘‘Na TV e no rádio quase não há espaço. A maioria do povo não tem acesso à mídia escrita. O rádio e a TV são de graça, mas os instrumentistas não têm acesso a eles. Precisamos da democratização de um espaço’’, comenta.
Enquanto no Brasil o reconhecimento ainda está por chegar, Jorge Oscar revela que no exterior é diferente: ‘‘Depois do futebol a música é o cartão de visita do País. Nos grandes festivais de peso no mundo, a música pedida é a música instrumental brasileira, de raiz, tradição e qualidade, com respeito e influência.’’
Segundo Nenê, as sonoridades brasileiras são classificadas em dois grupos no estrangeiro: uma música para se divertir e dançar, e outra para ouvir e pensar. ‘‘Tem a música de animação e a música para ouvir. Até Gilberto Gil é considerado animação. Ninguém faz um sucesso maravilhoso na Europa, isso fica restrito a um público que consiste nos brasileiros que vivem lá e alguns europeus. Depois de Hermeto Paschoal e Baden Powell, acho que só o Egberto Gismonti, entre outros poucos, faz realmente sucesso lᒒ, acrescenta.
Na complexidade da situação, sobram farpas para alguns companheiros, pois muitos instrumentistas são coniventes com o quadro que se configurou no País. ‘‘Por trás dos nomes da música comercial estão bons músicos. Eu sei que a situação é difícil, mas eu vivo de música e não preciso fazer isso. Acaba criando uma mentalidade nos mais novos de que eles têm que se dar bem’’, critica o baterista.
O debate, porém, se desenvolve sem ressentimentos e desemboca na educação para divulgar e preservar o patrimônio musical brasileiro que existe e continua sendo construído. E que nas raias da indústria cultural não conseguiu espaço para chegar ao conhecimento de novas gerações, que criam seus parâmetros em composições estritamente comerciais. O bate-papo se encerra com um preceito de Nenê: ‘‘O artista deve sempre contribuir para algo evolutivo na educação de quem o escuta.’’
• Jam Session com professores da Oficina de Jazz e MPB do 19º Festival de Música de Londrina - Com Mané Silveira, Paulo Braga, Djalma Lima, Jorge Oscar e Nenê. Hoje, às 22 horas no Teatro Zaque de Melo (Avenida Rio de Janeiro, 113), em Londrina. Ingressos a R$ 2,00.

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