Dia de luz, sol no rosto, conversando à sombra da varanda, papo-retrato, o assunto discutido era o da transformação de energia: elétrica x mecânica, processos químicos x processos físicos, ondas em partículas, sacos, tijolos, concentração de matéria, espaço-tempo fixado na ponta do dedo indicador, voltado para onde o olho aponta, clik. Bum! A luz do flash acendendo a pólvora do fogo de artifício, o rojão estoura na hora, a luz queima. Insight. Escrevo enquanto descrevo.
Então é isso a foto, o registro de um momento quântico feito do brilho de fótons? A história da fotografia comprova que o próprio registro é uma particularidade do real. E a foto, a verdadeira foto, é um disparo no coração da síntese. É quando a imagem diz tudo.
O que dá permanência e duração ao momento é a sua densidade poética, ou melhor, é a tentativa de congelar o fato que faz a foto virar uma idéia, além do registro do feito.
Diz meu amigo fotógrafo, enquanto espera que a luz se deite: ‘‘Transformar espírito em matéria é coisa de alquimista, misto de bruxo com artista’’. Captar o entendimento do que se passava na cabeça, naquele momento, é como tentar agarrar o tempo: melhor que ele passe. Por isso o caos entre cabos e antenas, fios, conexões, fluxos, redes que formam o sistema nervoso. Paradoxos: a ação de congelar faz reviver algo que se inaugura toda vez que é visto. Olhar a foto é mais que recordar, é mais que contemplar, é criar uma situação a ser vivida. Anotar um fato é como compor os detalhes de objetos a serem fotografados.
Várias são as metáforas para o processo fotográfico. Diz-se deslumbramento para quem se cega de tanta iluminação. Iluminado é aquele ser repleto de luz. Clareza é o que todos queremos. Queimar o filme já é sujeira... Tudo são possibilidades para encontrar temas para fotos, para fabricar fábulas, foto-grafar, desenhar com luz. Fixar idéias é a idéia fixa da humanidade. Fazer o chumbo virar ouro. A prata, foto. Lucidez.
Como um haicai, a poesia japonesa da síntese, a fotografia é o registro da impermanência. Ela sempre fala do que acontece no ato, sua presença é imanente. Ao contar uma história ela recria um instante, um fragmento capaz de nos retirar da anestesia cotidiana, para nos devolver à percepção dos sentidos, para nos tocar a sensibilidade.
Canais abertos para o contato, sabemos que nossa relação foi estabelecida ao abrir e fechar do diafragma da máquina. Ao recolher o instante para dentro da câmara escura, suspendemos o tempo, prendemos a respiração, deixamos de existir para que o que há em nós se manifeste. Pow!
É hora da revelação do processo de luz. Para garantir nossa memória reproduzimos a mesma imagem, com o mesmo olhar que sempre é único, em vários lugares, seja pela foto digital, pelos laboratórios caseiros, profissionais, uma hora, ou, como agora, pelos pensamentos e anotações que tentam se aproximar do exato momento em que se deu aquele papo fotográfico, cheio de luz capaz de acender uma bomba, acontecido em uma varanda, quando, de fato, foi registrado o acontecimento. O que mais queremos além de clarear a nossa mente?
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